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19 JUN 2018

TECENDO REDES DE APOIO E PROTEÇÃO PARA A RECRIAÇÃO

Vivemos um tempo singular em nossa Sociedade, sem igual em minha geração.

Em nome de uma crise que já encontra consenso em tudo quanto é canto do país, a sensação é a de que tudo parece desabar diante de uma coletividade que sucumbe às circunstâncias que a tomam há algum tempo.

É perturbador pela dimensão que vem tomando, pelas repercussões e, sobretudo, pela perspectiva de piora que alimentam a desesperança e o sofrimento concreto em muitos de nós.

Cora Coralina questionava qual seria o sentido da vida se vivêssemos sem tocar o coração das pessoas. Defendia que fôssemos verdadeiros, intensos e puros enquanto durássemos, referindo-se ao nosso senso de mortalidade, da nossa breve passagem material.

Passou do tempo de mantermos vivo um registro assim tão especial. Também passou do tempo de nos questionarmos sobre o legado que vamos deixar às gerações que não nos pediram para nascer. Esse período turbulento é rico em oportunidades para questionamentos e revisões dos modos de viver e conviver.

Que Sociedade estamos bancando compor em favor das conquistas que desejamos? Quem somos nós neste mundo de hoje? Quem és tu?

Protagonista X Coadjuvante?
Sensível X indiferente?
"Salvando a mim mesmo" X Pensando coletivamente?

O quê fazer para sair do senso comum e agregar novos valores a este mundo que vivemos?

Quando olhamos para o cenário da Saúde do nosso País não nos faltam desafios bons sob toda esta perspectiva. Temos muitas coisas boas, um modelo magnífico e potente, mas com fragilidades importantes em meio a grandeza de tudo que se apresenta. 

Uma evidência disso é a consideração de que tal contexto de crise tem invadido com força os espaços da Saúde. E penso que nós, gestores e profissionais, somos protagonistas também nas organizações onde trabalhamos, privilegiados pelo conhecimento e, por isso, somos obviamente convidados a nos questionar quanto as contribuições que damos cotidianamente para a recriação e melhoria.

Trata-se de uma aventura que não tem nada de tranquila não. Grosso modo, o que temos para lidar no momento passa por fatos e situações como:

-nosso povo muitas vezes não avalia positivamente a estrutura disponibilizada pelos serviços, seus processos e resultados,

-fatos do atual contexto mostram uma população envelhecendo a passos largos em meio a enorme queda nas taxas de natalidade e fecundidade, associadas a uma epidemia de violência que nos últimos anos assola adultos jovens,

-toda essa vida corrida e estressante, com tudo pra fazer pra ontem, tem gerado um certo grau de impaciência e intolerância generalizada que nos aproximam do conflito e da violência.

E como se não bastasse:

-já bate em quase 40% o quantitativo de trabalhadores da Saúde em situação de afastamento do trabalho devido a transtornos mentais diversos, como a depressão e o esgotamento mental ["Burnout"],

-o número de processos trabalhistas alcança números estratosféricos no País, já passa de 2,7 milhões, segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho, e permanece em franco crescimento,

-os processos por erros médicos no Superior Tribunal de Justiça assumem dimensão assustadora no Brasil, tendo triplicado nos últimos dez anos.

Pergunto de novo: o quê fazer para sair do senso comum e agregar novos valores a este mundo que se apresenta para nós?

A considerar este momento de lançar as sementes para um novo tempo, enxergo cinco ações que podem nos ajudar a lapidar o olhar para esse momento de crise e a nos preparar melhor para tomar atitudes que podem fazer alguma diferença:

A primeira deles é uma reflexão sobre quem somos nós e onde estamos atualmente. E aqui eu me refiro aquilo que confere sentido e significado à nossa vida fundamentalmente. Em primeira instância, trago o conceito do amor consigo e com os outros como o verdadeiro sustentáculo para as nossas práticas em saúde. O filósofo Cristo se referiu a experiência do amor como naquele momento sublime em que o seu amado se sentia feliz e completo a partir de algo que promovia. Se esta não for a razão maior da nossa ação, qual será?

Em seguida faz-se importante questionar-se quanto ao projeto coletivo que fazemos parte. O que o caracteriza? Quem o lidera? Que liderança é essa? Os espaços para fala e escuta são defendidos e preservados? Há espaço para a espontaneidade e criatividade? Todos unem esforços semelhantes em favor da conquista dos objetivos?

O terceiro desafio diz respeito a adequação da estrutura e dos processos à realidade, segundo o impacto que desejamos conquistar com os resultados. Dialoga com a nossa missão de fazer mais com menos e da melhor maneira possível, a partir do tripé eficácia, eficiência e efetividade. Não é raro observar gente que não os consegue distingui-los ainda. Seis perguntas podem nos ajudar nesta compreensão:

-qual é o projeto atual para a gestão da sua organização?
-qual o problema que esperam que você resolva?
-qual o tamanho desse problema?
-que solução apresentaremos?
-os ambientes estão preparados?
-as pessoas estão preparadas?

O quarto desafio nos questiona quanto ao quê fazer, para quê fazer e o como fazer. Dialoga com a forma como vai se dar a gestão da prática cotidiana do trabalho, utilizando-se de ferramentas que confiram sustentação às operações, ao monitoramento e à avaliação regulares e frequentes de todo o corpo de pessoas envolvido no desenvolvimento da organização.

Por fim, penso que o quinto desafio seja talvez um dos mais valiosos, sobretudo pelo seu caráter individual, que perpassa o intangível. Tem a ver com o que chamam comumente de "grandeza de espírito". Eu não tenho mais dúvidas sobre o quanto ele reúne potencial para fazer a diferença em favor da agenda positiva que tanto precisamos na Saúde.

Tem a ver com o quanto nos entregamos de corpo e alma para as coisas que acreditamos e defendemos, preocupados com a parte que é de nossa responsabilidade e que só nós temos condição de fazê-la. Tem a ver com a nossa disposição para fazer a diferença na vida de outras pessoas, dos nossos semelhantes. Tem a ver com o quanto conseguimos manter de sobriedade em meio a um tempo em que tudo concorre para a manutenção altiva da crise e o caos, com o que tende a nos afastar daquilo que realmente importa pra gente.

Que tal nos engajarmos com mais gente e tecer redes em favor de reflexões e ações a partir desses desafios para o trabalho em organizações de saúde?