A parábola do dominó

Erico Vasconcelos [1]
Diretor-Fundador da UniverSaúde

Eu cresci vendo a minha família jogando dominó, uma brincadeira milenar e extremamente inteligente. Adorava quando viajava de férias e encontrava meu tiozão que era um verdadeiro craque no jogo. Ficava assustado sobre como ele “adivinhava” as peças dos adversários, ganhava e ainda tirava graça deles. Não acreditava como ele conseguia fazer isso. “Quando crescer jogarei como ele”, pensava eu, rs

Os tempos de pandemia trouxeram também a oportunidade de nos divertirmos mais por aqui – guardados os devidos cuidados com as medidas de combate à covid-19. Vez ou outra cá nos vemos jogando dominó com amigos. Formamos duplas e fazemos jogos muito legais, nos divertindo pacas. Minha filha Letícia fica do meu lado e assim como meu tio fez comigo, sigo no legado de compartilhar as dicas quentes pra ela, rs.

Ontem vivi uma jogada que me fez extrapolar. De repente me vi diante de um lance cujo desfecho dependeria totalmente da escolha que tomaria. E o legal é que no dominó, assim como na vida para muitos de nós, tal decisão silenciosa deve considerar e se fundamentar nas jogadas vividas anteriormente e na observação criteriosa dos lances observados de cada um dos jogadores. Fato é que quando a decisão vem pra você das duas uma: ou você prestou atenção no jogo, decide e acerta com uma margem de erro mínima ou você perdeu algum detalhe e acaba por desperdiçar a oportunidade que caiu no seu colo e derrotar para si próprio.

Imagine que no Brasil de hoje as peças do dominó já estão sobre a mesa. São muitos os jogadores ao redor dela que se julgam sabidos das regras e aptos para se aventurar na jornada desejosos pela vitória e redenção. Seguem alguns pontos a considerar e que surgem como potenciais aprendizados para nós neste instante “nebuloso” e um tanto atormentado que vivemos que penso que vale registrar, vejamos:

1-o dominó aponta premissas que demandam combinado prévio entre os players. Uma vez combinado por meio do diálogo democrático o combinado se estabelece. E deste modo a convivência flui respeitosamente. Pode fechar propositalmente? Pode falar durante o jogo? Cinco “dobes” volta?

2-o jogo é jogado. Cada um vê o dominó de um jeito diferente. E cada um se dá a permissão de se julgar potente para a vitória por natureza. Mas o jogo tem um conteúdo que exige um conhecimento básico e sua devida apropriação. Colocar isso em prática porém é um imperativo. Sem prática e sem treino você “perde a mão” e os macetes. Como disse, o jogo só se ganha jogando e a vitória é produto da observação de cada ato vivido ao longo dele. Quanto mais atenção mais potencial o player reúne para as escolhas mais acertadas,

3-o imponderável é uma possibilidade. E quando você julga que fez tudo certo, “deitou” os “dobes” no momento mais correto, “puxou” as pedras que mais tinha na mão logo no início do jogo, não passou em nenhum momento, enfim. Tudo enveredava para a vitória incontestável quando vem a vida e pumm, você perde! O que será que aconteceu, o que fiz de errado, você se perguntaria. Voltar o jogo para analisar cada jogada realizada é impossível..

4-quando a decisão depende única e exclusivamente de você. No dominó a oportunidade da decisão do jogo na sua mão não é digamos assim algo que aconteça com frequência. E quando acontece é um privilégio. Você ali num instante unicamente responsável pelo desfecho bem sucedido do jogo. No entanto trata-se de um momento de apreensão que acaba por encher o player de bastante responsabilidade. Sua escolha entre a decisão mais acertada ou equivocada está ali a beira de juízos diversos, entre o mais e o menos inteligente, o vitorioso ou perdedor, o mais ou menos atento – a ponto de a pessoa que está de fora aguardando para entrar no jogo considerar seu histórico vitorioso para decidir entre escolhê-lo ou não.

Dos juízos possíveis para cada um de nós? Dos aprendizados possíveis de extrairmos de tudo isso? Acabo de “passar”, não tenho a “peça” na mão [muito embora a oportunidade do diálogo entre os players esteja presente e potente, rs..]

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[1] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. É apaixonado pelos desafios da gestão dos serviços de saúde. Há 15 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas. Foi gestor de saúde de diversas organizações privadas e municípios. Recentemente atuou no governo federal elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2017, uma startup para a Saúde que ajuda gestores do SUS a fazerem mais e da melhor maneira possível com menos dinheiro, associando informação e inteligência por meio de tecnologias digitais. Já trabalhou em mais 30 organizações e hoje atua em diversos projetos potentes com organizações públicas e privadas.

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