A vida, a pandemia, as tecnologias e o que fazemos com tudo isso – perspectivas?

Erico Vasconcelos [A]
Diretor-Fundador da UniverSaúde

Era uma vez, em um lugar não tão distante, um ser humano daqueles! Que nasceu pra causar e fazer acontecer. Era o segundo caçula de uma família enorme com 23 irmãos. Seus pais procriavam para obterem mão de obra barata para trabalharem na produção de mel. Forjado no caos das relações e na rédea curta de um pai linha dura, foi posto pra fora de casa aos 16 anos como todos os mais velhos já haviam sido.

Serviu o Exército na cidade grande, começou pequeno e, determinado, cresceu. De faxineiro de uma empresa de ônibus evoluiu, tornou-se Comprador e seguiu sua vida. Constituiu família com uma sobrinha, filha do seu irmão mais velho, em meio a tamanha aproximação que tiveram em uma cidade enorme e sem referências de contato e amizade. Tiveram três filhos. Fizeram de tudo por eles, dívidas inclusive.

Depois de um tempo decidiu empreender. Montou sua própria empresa, considerando sua experiência e conhecimentos acumulados de anos. Sofreu solavancos aos montes – como todos que empreendem experimentam aqui nesta Terra. Mas perseverou e também cresceu. Formou seus filhos. Deu conta da missão com distinção e louvor.

Com a aposentadoria e a venda do seu negócio a vida assumia um colorido diferente. Já sem o mesmo vigor de outrora, buscava novos sentidos. Tudo ia bem até que, com a aproximação com a tecnologia, envolveu-se com as mídias sociais e com a políticagem que então afetava as pessoas neste lugar. Foram tempos difíceis. Como numa ação de “lavagem cerebral”, tornou-se “porta-voz” gratuito daqueles que nem sequer davam conta que ele existia. Defendia o indefensável. Ia na contramão da educação que obteve e pregou aos filhos. Neste “pacote”, veio a amargura e a insensibilidade.

Eis que uma pandemia assola o Reino e começa a aniquilar seus Seres viventes. Ao Mestre do momento tudo bobagem, coisa pequena. Afinal não haveria o que temer. Passaria logo. “Ao trabalho seus maricas”, era o que proclamava. E assim devidamente ordenado este Ser passou a servir cegamente. Defensor ferrenho do Mestre, negou a existência da doença grave em curso. Negou os procedimentos. Negou as recomendações. Tinha exatamente o perfil de quem a doença mais assassinava até então. “Quem procura acha”, uma vez o interpelaram.

O tempo foi passando e os números de casos e de óbitos se avolumando. Cada vez mais gente morria neste lugar, o que trazia medo e tristeza à maioria. Mas não aos que persistiam negar a gravidade do cenário ora instaurado. Um paradoxo maluco. Os súditos do Reino, assim como o Ser aqui descrito, eram claramente manipulados pelos serviçais do Mestre, mas sequer davam conta. Estavam obstinados em manter o lugar altivo e produtivo. Estavam determinados a contribuir para o caos.

Depois de um tempo a vida perdeu valor ali. Os números de pessoas que morriam pela doença começaram a ser inescrupulosamente mexidos. Os anúncios das vítimas não mais tomavam o horário nobre da televisão. Ninguém mais se importava com a família daqueles que se foram, considerados desafortunados.

Até que a doença acomete este Ser, ele adoece, é hospitalizado, batalha pela vida e torna-se mais uma vítima entre as mais de 500 mil que já se foram pela tal. E assim o exército de súditos vai perdendo seus soldados a cada dia que passa. E eis que a luz no fim do túnel ali parece nem sequer surgir no horizonte. “Que Deus nos proteja!”, foi a fala recentemente de uma pessoa em meio a esse cenário entristecedor .

Parece faltar forças ao povo deste lugar para reverterem o cenário que se arrasta, maltrata e o machuca. Não há lembranças recentes na história de um estrago assim tão marcante como este. Ninguém sabe exatamente o que fazer e, na dúvida, a defesa é por “seguir a vida”. Ali silenciosamente. Tentando ignorar o Mestre como se isto fosse possível.

Enquanto isto este Mestre segue protagonista. Usa escancaradamente a própria máquina pública para divulgar “seus feitos”. Já lançou as sementes de sua próxima campanha à manutenção de sua posição. No exato instante em que a vida sucumbe em seu próprio Reino.

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Foram quase dois meses até me reencontrar e reunir energia para retomar minha produção neste Blog. Quis o destino que meu Pai não resistisse à COVID-19 após 27 dias de internação em 24/04/2021. E eis que no dia de hoje, além dele, mais de 500.867 pessoas no Brasil perderam suas vidas para a pandemia.

[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 15 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas. Foi gestor de saúde de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma startup que ajuda pessoas e organizações a conquistarem mais Saúde integrando gestão, educação e tecnologias Já trabalhou em mais 40 municípios e organizações. Cursa atualmente a pós-graduação do Master de Liderança e Gestão (MLG) do Centro de Liderança Pública (CLP).

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