O “chique” é ser generalista!

Eu me preocupo com a falta de simplicidade e do olhar generalista que ainda se faz visível na produção de cuidado de gestores e profissionais de saúde com o “objeto” que dá causa a sua existência, os usuários, ou pacientes.. [Enfim, eu gosto de chamar de pessoas mesmo, que são assim como eu]

Simplicidade traduzida pela arte de cuidar na essência do termo. Pela arte de se colocar no lugar a ponto de sentir o que o outro pode estar sentindo. Pela magia de escutar atentamente o que a pessoa diz. Pela perspicácia para observar o detalhe da linguagem do corpo enquanto a pessoa que pretendemos cuidar se dirige a nós. Simplicidade pela ousadia de ser generalista e partir na contramão de um mundo que recorta as pessoas em pedaços, considerando esta a melhor forma de cuidar.

Quanta falta nos faz a falta de simplicidade! Quanta falta nos faz a figura de um profissional de saúde generalista! Quanta falta nos faz um gestor com olhar generalista..

Mas do que exatamente estou me referindo como “generalista”? O que significa ser objetivamente alguém com postura “generalista”?

Pois é, são questões ainda perturbadoras para alguns. Vou detalhar tais desafios no exemplo compartilhando uma situação que me vi diante com a minha própria filha no alto da sua maturidade dos 11 aninhos..

Falar do que vivemos na relação com ela ao longo de sua história como nossa primeira filha daria um bom livro, mas vou me remeter a um episódio do que vivemos objetivamente neste último mês. Pra resumir, estava em casa ansioso para ouvir dela e da minha esposa sobre uma consulta que teria com um destes “medicões” e sobre os olhares compartilhados por ele quando vejo minha filha chegando chorosa e literalmente baixo astral, desencantada com a consulta vivida. Perguntei o que tinha havido e a resposta veio na lata: “o médico disse que eu não vou mais crescer, que ficarei baixinha assim pra sempre e que eu tenho uma Síndrome X”, palavras dela..

Fiquei assustado, minha esposa entorta os olhos em sinal de reprovação à conduta do profissional mas disfarça com sabedoria para proteger nossa filha e não expô-la mais do que houvera sido exposta.

Já perambulo há 20 anos pela Saúde do nosso país, já conheci boa parte dos cantos de todo o nosso território, conheço razoavelmente bem as dores da Saúde da nossa Nação em meio às permissões, ao amor pela causa e as oportunidades que construi para viver. Posso dizer com bastante tristeza que a arte da “perda de oportunidade” e também do discernimento, da sabedoria e da maturidade caracteriza uma grande leva dos profissionais de saúde que se prestam para cuidar de seus semelhantes por aí afora – peço licença pela forte generalização..

Há várias razões possíveis para isso, o que daria também um outro livro para dissertar a respeito, enfim. Do que mais me salta aos olhos, a formação voltada para o estigma de “Deus”, tipo o “Salvador da Pátria” é uma questão; a outra tem a ver com um caráter de aspecto comportamental mesmo, que passa pelo egocentrismo, pela petulância e pela arrogância em última instância.

É fato que quando um ser humano olha pro outro pela perspectiva da fragmentação já entranhada em seus modos de ser, de pensar e de agir fica difícil demais agir diferente. Mesmo em pessoas como esta que atendeu minha filha com mais de 50, 60 anos e que supostamente nos levaria a crer que a vida o teria ensinado alguma coisa no ato de se relacionar com seus pacientes. Mas veio em nós nessa história uma certa tristeza pela decepção mesmo. Minha filha não teria a menor necessidade de saber no detalhe aspectos como o que ele trouxe pra ela no alto de seus 11 anos de idade. Na verdade agora temos um outro e novo problema: cuidar da saúde mental da minha filha que agora permanece assustada julgando que ficará baixinha e gordinha pro resto da vida em função de algo que ela não terá mais governo para dar conta..

A dimensão do conceito de “valor” foi pro espaço! A dimensão do princípio da bioética da não-maleficência nem se fala! “Primum non nocere”, diria Hipócrates, o Pai da Medicina [frase atribuída a ele], a base da prevenção quaternária que destaca que o profissional de saúde deve antes de mais nada não prejudicar, não causar danos a quem quer que se preste a cuidar.

Estamos cercados por gente como esta, profissionais de saúde que fragmentam seus semelhantes por uma causa própria, por uma ordem própria e que encontra num passado não muito recente oportunidades mercadológicas até para seguir agindo assim livremente, lucrando com isso inclusive. O olhar entrecortado diminui as pessoas ao status de “coisa”. Joga pro espaço a dimensão humana e o olhar do todo que deveriam ser considerados em primeiro lugar. Rebaixa o conceito de integralidade na abordagem e na produção do cuidado. Desconsidera a escuta e a perspectiva do outro de modo arrogante e ignora abertamente a lógica da intersetorialidade. Tira o indivíduo do seu contexto e olha pro problema de forma pontual e isolada, o que confere um absurdo sem tamanho..

Nós, gestores e profissionais de saúde deste país extraordinário, precisamos de mais “algumas coisas” para a produzir cuidados distintos na relação com àqueles que nos confiam suas vidas. É preciso ir além, olhar adiante, é preciso transcender. Precisamos urgente de pessoas com olhares generalistas para as suas próprias práticas, para as suas práxis.

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