Precisamos cuidar dos gestores da Saúde

Erico Vasconcelos [1]
Diretor-Fundador da UniverSaúde

Não tá fácil pra ninguém suportar as circunstâncias que a epidemia inaugura para a nossa Sociedade, mas suportar as pressões e a sobrecarga que muitos Gestores de Saúde estão atualmente sendo submetidos não é mesmo para qualquer um.

Todos nós temos sido desafiados a seguir e a nos reinventar em meio as demandas diferentes que o “novo mundo” apresenta. As perspectivas porém deste dito “novo normal” para as organizações de Saúde tem sido acompanhadas de uma tensão elevada e distinta devido as questões sociais e políticas que perpassam e repercutem fortemente no ambiente onde atuam – além claro das respostas imediatas que as organizações precisam dar diante da atenção e assistência ora demandada.

Já havia um certo desencantamento entre nós por aqui antes da epidemia. Já havia até uma certa carga de estresse nas organizações de Saúde. Já havia agendas pautadas pelas contingências. Já havia atravessamentos político-partidários que chegavam a fragilizar a gestão das organizações. Já havia pressões assistenciais e institucionais de toda ordem também. Nada pra lá de “comum” observar entre nós assim a bem da verdade.

No entanto a epidemia chega com toda sua potência num momento em que repentinamente tudo precisa ser reconfigurado e repensado da noite para o dia por força das circunstâncias. Tudo muito brutal e pra ontem. Da burocracia e dos processos historicamente um tanto mais morosos às respostas mais ágeis e concretas. Das relações mais “cascudas” e verticalizadas dos ditos “Chefes” aos contatos necessariamente mais cordiais e respeitosos entre as pessoas. Do senso de equipe e união um tanto atabalhoados ao imperativo da articulação mais objetiva, solidária e fortalecida. Dentre tantas outras coisas que escutamos que foram demandadas desprovidas de alguma condição prévia pra acontecer da forma como em tese deveria.

Aonde foram parar as fragilidades?
Que “poção mágica” foi essa?

E a que preço? O que estamos perdendo em meio a tudo isso?

Sim, sei que nós damos conta. É a nossa sina. Somos corajosos. Somos fortes. Somos potência. Somos vida. Vamos lá e no fim fazemos acontecer. E dá certo sim no fim, está claro.

Porém, como alguém especialista no cuidado com estes cuidadores, gestores de organizações de saúde de todo o Brasil, há mais de uma dezena de anos e que vem sendo regularmente acionado para escutar e apoiar Colegas nesta missão, preciso dizer em alto e bom som que todo o caos estrutural já bem conhecido se acentua gravemente neste momento. As fragilidades coletivas afloram, as diferenças individuais emergem, as insuficiências institucionais surgem e a demanda pelas respostas mais pontuais acaba por passar por cima dos elementos mais basais de caráter organizacional que, dentre outros aspectos, são sonoramente ignorados por força das respostas de curto prazo. E assim os dias seguem num amontoado de mal entendidos, também mal resolvidos, com repercussões de toda ordem.

Há pontos cruciais que precisam ser trabalhados. Aspectos que exigem diálogo e novos contratos. A Saúde demanda atenção redobrada neste instante. E nós precisamos cuidar destas pessoas e de suas organizações. Urgente..

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[1] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. É apaixonado pelos desafios da gestão dos serviços de saúde. Há 15 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas. Foi gestor de saúde de diversas organizações privadas e municípios. Recentemente atuou no governo federal elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2017, uma startup para a Saúde que ajuda gestores do SUS a fazerem mais e da melhor maneira possível com menos dinheiro, associando informação e inteligência por meio de tecnologias digitais. Já trabalhou em mais 30 organizações e hoje atua em diversos projetos potentes com organizações públicas e privadas.

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6 Responses

    • Parabéns pelo artigo aponta para a necessidade de cuidar de quem cuida para garantir a integralidade do cuidado!

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