Quanto custa a operação do seu serviço de Saúde?

Erico Vasconcelos [1]
Diretor-Fundador da UniverSaúde

Imagine eu e você assumindo uma posição de Gestor de uma organização de saúde como um hospital, uma Clínica médica ou odontológica ou mesmo de uma Secretaria de Saúde de uma cidade qualquer pelo Brasil afora independente do porte. Que baita responsabilidade a nossa, não é mesmo?!

Trata-se de uma experiência pra lá de desafiadora e cá entre nós, fascinante (exagerando saudavelmente um pouquinho, rs). Isto porque eu adoro compor com as pessoas e pensar junto com elas os meios para recriarmos as circunstâncias que afetam a cultura e os jeitos de fazer e de entregar Saúde com segurança, qualidade e resultados. E tenho a convicção de que para transformarmos o modo como a Saúde é enxergada pelo povo por aí afora essa paixão dá o tom e tem potência para conferir toda a diferença. Esse é certamente um tema para um outro artigo, rs.

A questão aqui neste instante é a seguinte, vamos começar do começo literalmente:

Quanto custa sustentar financeiramente a sua organização?
A capacidade instalada atual atende as necessidades do seu público-alvo? Ela é suficiente?
Sua operação consome sua capacidade instalada na plenitude?
Esta operação é produto da pactuação e do engajamento das pessoas e que tem a devida ciência sobre o “como” ela deve acontecer? Seus processos internos estão organizados e formalmente descritos?
Seus resultados são produto da correspondência natural à estrutura e aos processos alinhados e operados por pessoas em fluxo, trabalhando em equipe?

Eu imagino as suas respostas. E é fato que boa parte de nós não as tem no plano dos fatos e dados. E foi deste incômodo que, debruçando-me nos registros de Avedis Donabedian (1919-2000), médico libanês considerado o “pai da qualidade”, veio a motivação de pensar em um método orientado para a leitura destas situações do cotidiano das organizações de Saúde. A proposta é simples e objetiva. Nós da UniverSaúde temos evoluído com diversas organizações públicas e privadas na construção desta Matriz que chamamos de “Estrutura X Processo X Resultados” e conquistado resultados especiais. Uma das observações que nos chamam a atenção é que a perda de operação chega em torno de 40%, resultando obviamente em desperdícios financeiros desta mesma ordem. Significa então dizer que, ao aplicarmos esta Matriz e construirmos planos de ação para a recriação com os Colegas destas organizações, temos reunido potência para otimizar o faturamento das organizações em um percentual próximo disto. Isto foi o que aconteceu em uma das Coordenações da Equipe Gestora dos municípios onde atuamos, Tarumã-SP, na região oeste do estado de São Paulo.

Vamos discorrer um pouco mais sobre esta Matriz? Em primeiro lugar, gestão é liderança e gerenciamento. Liderança é cuidar de quem cuida, compondo com nossos pares, inspirando as pessoas dos nossos times, servindo-as incessantemente e dando exemplo, com amor, serenidade e coragem. Gerenciamento diz respeito a todo o cuidado com os processos que fazem parte do “como fazer”, das normativas e dos parâmetros que devem guiar/nortear o time para a conquista do melhor jeito de fazer, da melhor performance e dos melhores resultados por conseguinte.

Toda organização é concebida em função de um desejo de uma entrega ao seu público-alvo. Este planejamento por sua vez considera o investimento em estrutura. Esta estrutura precisa reunir as condições para a boa consecução das ações a luz das entregas desejadas. Resumidamente apresentamos alguns passos para a identificação do cenário adequado para a leitura desta estrutura, ok? Vamos combinar que o primeiro passo é pensar nas pessoas que comporão o time de trabalho. Quais serão necessárias? Quantas exatamente? Carga horária? Quais os perfis desejados? Que competências esperamos que desenvolvam? Que performances anseamos que tenham? Como as mediremos? Que indicadores refletirão os melhores resultados? Como vamos entusiasmá-los? Que ações lançaremos mão para aperfeiçoá-las em serviço? Haverá alguma proposta de remuneração variável?

Quanto a infra-estrutura predial, quantos serão os espaços assistenciais finalmente? Como será a divisão destes trabalhadores nestes espaços? Qual será a agenda a ser disponibilizada aos usuários? Como será o trânsito dos trabalhadores e dos usuários do serviço? Em relação aos equipamentos, o que será imprescindível? Por quê se faz necessário? Quantas pessoas os utilizarão? Quem os utilizará? Qual será a sua frequência de utilização? Como seu funcionamento será monitorado? Quem avaliará este processo?

Quanto a cadeia de suprimentos, o que será imprescindível? Por quê se faz necessário? Quantas pessoas consumirão os insumos? Quem exatamente os consumirá? Qual será a sua frequência de consumo? Qual o consumo médio esperado para cada insumo? Como o consumo será monitorado? Quem avaliará este processo?

E por fim, quais as premissas preconizadas para a operação da organização em condições ideais? Quais as expectativas para a operação dos trabalhadores nestas mesmas condições ideais? Quanto de dinheiro será necessário para sustentar o bom funcionamento da organização nas condições consideradas ideais? Quantas pessoas esperamos assistir? Quanto custará finalmente o atendimento de uma pessoa neste cenário traçado para a organização?

Com base em toda esta leitura conquistada, somos naturalmente convidados a “cair de cabeça” nas reflexões sobre os processos, ou seja, sobre o “como” as atividades serão executadas na organização. Este “como” diz respeito ao cuidado com a forma como os Cuidadores realizarão suas ações a considerar as atribuições a cada um deles estabelecida e as competências esperadas para a prática de suas ações. Temos dois caminhos importantíssimos aqui a saber. O primeiro é o da liderança pela presença disponível para apoiar, escutar e recriar quando necessário, acompanhando o time com feedback regulares e frequentes. O segundo é o da obtenção do olhar “mais duro” mesmo do ponto de vista dos resultados obtidos a partir do trabalho realizado, das informações conseguidas por meio dos indicadores que oportunizarão conhecimentos e subsidiarão por sua vez a gestão para a tomada de decisões.

Estes resultados poderão se apresentar pelos dados absolutos da produção realizada objetivamente, dos indicadores de impacto que medem o desempenho geral da organização e da performance dos trabalhadores engajados na missão organizacional. É estratégico que tais resultados considerem a percepção dos usuários sobre os serviços prestados, bem como trazer finalmente o percentual de perda de operação no período medido e as justificativas decorrentes disto, tais como as possíveis faltas dos usuários, faltas dos profissionais ou outras interferências devido a falta de equipamentos ou suprimentos para a prestação do serviço.

Haveria muito mais o que avançar por aqui num tema tão vasto e complexo a bem da verdade. Considerá-lo para as organizações de Saúde ainda é um desafio para muitos. Porém extremamente recompensador quando conseguimos conquistar a sensibilidade de Gestores e profissionais para a incorporação destas ações em suas rotinas e operações nas organizações onde atuam. Uma janela de oportunidades distintas e infinitas abre-se neste momento para todos nós envolvidos com a transformação dos jeitos de fazer Saúde em nosso País. Nós da UniverSaúde cremos firmemente neste movimento.

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[1] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. É apaixonado pelos desafios da gestão dos serviços de saúde. Há 15 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas. Foi gestor de saúde de diversas organizações privadas e municípios. Recentemente atuou no governo federal elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2017, uma startup de educação para a Saúde. Já trabalhou em mais 30 organizações e hoje atua em 6 projetos incríveis e potentes. Ama de todo coração Juliana, sua esposa, e seus filhos Letícia e Theo.

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