Tem uma vida no meio entre as recomendações e as vacinas

Erico Vasconcelos [A]
Diretor-Fundador da UniverSaúde

A reflexão do nobre Allan Dias Castro [1] de tão pura e simples mexe muito comigo. Poderia ser um ensaio sobre a importância da calma em contextos de crise, mas não, rs. Quero compartilhar sobre o tempo e o que temos feito dele. Acho que esta reflexão sobre o tempo nunca foi tão explorada quanto na nossa geração. Afetados pela pandemia de Covid-19 no Brasil há mais de 1 ano, somos convidados a nos rever e a nos repensar continuamente.

Para nós gestores e profissionais de saúde isto toma um vulto e um peso ainda maiores. Quem é você hoje?  Capturado pelas circunstâncias, mergulhado no caos e sofrendo? Como lidar com os sofrimentos diversos que nos afetam grandemente? Como manejar as repercussões da dor e da tristeza deste momento catastrófico?

Vacinas que não chegaram, não chegam e que demorarão pra chegar a considerar o que temos observado. “Lockdown” pra lá e pra cá, o que deu certo, o que não deu, quem fez mais, melhor, quem fez menos, quem foi pior..

Enquanto isso o povo que desafia adoece. Alguns muitos morrem. Isso vai minando a energia e arrastando a calma. Ahh o tempo. Delegar pro tempo seria mesmo a saída? O tempo nos convida a bem utilizá-lo no instante em que o circo pega fogo lá fora. E quem é que dá conta? Eu não dou, rs.

Tem uma “vida no meio” entre as recomendações e as vacinas

Como bem colocou o Médico e Professor da USP Gustavo Gusso – em artigo na Folha de São Paulo semana passada [2], tem uma “vida no meio” entre a chegada das vacinas e a recomendação do “fique em casa” e “use máscara”. Entendemos a importância do afastamento social, considerando as tradicionais indicações de proteção, mas tal recomendação em âmbito nacional agora nos parece pouco sustentável infelizmente. Porque ao mesmo tempo compreendemos por outro lado que o País não consegue mais parar. E aqui a conversa poderia ir longe. Remetendo-nos novamente aos conteúdos que o Professor Gusso nos presenteou, vemos que há muitas evidências que subsidiam este ponto de vista e que, casadas com a ciência, propõem a associação de tecnologias digitais para o combate a pandemia. Aqui reside a oportunidade que a crise sinaliza, a ação inovadora a partir do conceito “hack” para subverter a lógica reinante que concebe a chance de fazer diferente para obter resultados diferentes.

Porque não dá só pra esperar em casa. Países do sudeste asiático mostraram o caminho e foram bem sucedidos neste sentido – conforme já abordamos em mais de seis artigos aqui neste Blog. Ao se conectar com governos via aplicativos móveis, a população é reconhecida e valorizada em sua potência e protagoniza compartilhando sua condição de saúde em tempo real, dando condições para que os Técnicos da Saúde baseiem suas decisões em evidências – colocando médicos em contato com pacientes suspeitos de COVID-19 via telemedicina e indicando a realização de testes PCR para conquistarem diagnóstico precoce e assim conterem a circulação dos vírus nas cidades, dentre outros ganhos a partir do enfoque nas ações de monitoramento e rastreamento ativo dos contactantes.

Sem informação não se faz gestão

Muitos dos meus Colegas gestores atualmente estão literalmente “no escuro”. O que significa dizer que estão sem qualquer informação sobre o estado atual da arte da Covid-19 em suas cidades. E fato é: sem dado eu não tenho informação. Sem informação eu não obtenho condições de análise para conquistar conhecimento sobre as melhores medidas para enfrentar. E sem conhecimento das duas uma: ou não tomo decisão ou me atrevo a tomar baseada na história de cada um ou na intuição. Reitero: sem informação não se faz gestão!

Precupada com isto, a UniverSaúde desenhou esta aplicação multiplataforma que desde abril de 2020 se encontra disponível em uma página na Internet e em celulares e tablets para empresas e municípios. Hoje temos pronta uma ação inovadora que reúne potência para articular esforços ativamente entre as pessoas e que concorre para reduzir a transmissão do vírus, uma vez que elas próprias participarão ativamente do seu enfrentamento com mais inteligência e de forma colaborativa.

A Colaboração

Aliás, esta nos parece a palavra-chave! Colaboração. Simples assim. Falta mais colaboração entre nós. Pautada pela sensibilidade e inteligência. Sobretudo porque se trata de uma doença que afeta a coletividade e que, a tomar a extensão de sua gravidade, nos faz crer que somente nós unidos podemos dar conta para resolver. Este é o “pulo do gato” que ainda sentimos falta para que consigamos retomar a vida com mais segurança – amparando-se obviamente às outras recomendações já bem sabidas por todos.

Inovemos, pensando fora da caixa, para fazermos valer o que temos de melhor. Nosso tempo precisa ser mais bem aproveitado. Precisamos “casar” ciência e tecnologia para fazermos diferente e colhermos bons frutos. E há muito o quê fazer! O conceito de vigilância em saúde e suas ações contundentes precisam ser praticadas na sua essência. Precisamos embarcar tecnologia associadamente! É triste observar um País, já digital e com quase duas linhas de celulares ativas por habitante, perdendo pra pandemia, bem como perdendo oportunidades para se conectar e ganhar.

Insistir em fazer as mesmas coisas não nos trarão resultados diferentes. Precisamos nos indignar. Precisamos ampliar o olhar. Precisamos nos permitir. Precisamos ouvir. Precisamos compor. Precisamos tecer redes. Precisamos ganhar!

Referência:

[1] CASTRO, AD. “O Colecionador de saudades”. Voz ao verbo – 151. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CMwp83vghl9/

[2] GUSSO, G. “Sem testagem e rastreamento, Brasil vive apagão sanitário”. Opinião. Jornal Folha de São Paulo. 23/02/2021. Acesso em 24/03/2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/03/sem-testagem-e-rastreamento-brasil-vive-apagao-sanitario.shtml

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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 15 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas. Foi gestor de saúde de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma startup que ajuda pessoas e organizações a conquistarem mais Saúde integrando gestão, educação e tecnologias Já trabalhou em mais 40 municípios e organizações. Cursa atualmente a pós-graduação do Master de Liderança e Gestão (MLG) do Centro de Liderança Pública (CLP).

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