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14 MAIO 2019

NÃO É SÓ DE DINHEIRO QUE A SAÚDE PRECISA

Ninguém com experiência em gestão de Saúde no Brasil nega o quanto a falta de dinheiro repercute na qualidade das entregas e correspondência das expectativas para a população brasileira. 

Ela mesma que o diga: em 2016, o Jornal Folha de São Paulo lançou o ranking de eficiência dos municípios evidenciando que apenas 24% do público entrevistado aprova os Prefeitos e que a Saúde era o principal problema.

Desde que o SUS é SUS, para não voltarmos a época dos IAPS, INPS, etc., o subfinanciamento existe e é grave. Suas causas extrapolam a sensibilidade dos gestores simplesmente, falta visão de mundo, compaixão, senso de justiça social, enfim, não há ingenuidade. 

Mas nesses tempos de "meu Deus" tenho me questionado até que ponto o subfinanciamento crônico do SUS explica tudo isso que assistimos generalizadamente? 

Organizações com gestores cada vez mais "duros na queda", difíceis de lidar, grosseiros nas abordagens, verticais na cobrança dissociada de escuta e de consideração dos contextos. 

Organizações frágeis nas relações entre os seus próprios profissionais, que se ofendem mutuamente, que não dialogam e não conseguem se suportar e que se dopam para permanecer trabalhando, parecendo tão doentes quanto às próprias pessoas que pretendem cuidar.

Organizações assim que acabam por patrocinar a mentalidade negativa que historicamente a caracteriza ao se apresentar de modo intolerante e pouco atencioso nas relações com os usuários dos serviços.

Sim, é bem verdade que temos exemplos especiais de lugares onde nada disso acontece. Não é possível generalizar. Mas confesso que tenho me incomodado. Tem sido comum abordagens de pessoas agradecendo por simplesmente termos proporcionado uma escuta mais atenta ou mesmo um tempo a mais pra dialogar e tentar compreender fatos que transtornaram e tiraram as pessoas do dito prumo. Algo que me parecia natural e consequente da dimensão humana das relações nas organizações de Saúde tornando-se uma especie de "commodity". Estranho pra dizer o mínimo.

Dia desses dois ou mais Prefeitos curiosamente me abordaram dizendo que precisavam da minha ajuda. Disseram que a área da Saúde era a mais mal avaliada dos seus Governos e que o principal problema era a grosseria e o destrato nas relações com os usuários. Queriam assim que eu falasse sobre "humanização" para os seus trabalhadores, como se eu tivesse mesmo uma "vara de condão" para transformá-los do dia pra noite.

Isso ilustra bem o sentimento e o tamanho do problema conforme tenho observado. Precisamos nos reaver. Precisamos nos reencontrar. E as cinco dicas quentes são simples:

1-por quê você faz o que faz? Um verdadeiro resgate do sentido da vida e da carreira que cada um abraçou, 

2-o que lhe move para o trabalho? A motivação dialoga com o seu motivo para a ação. É mega interno, tipo seu e ninguém tira e nem precisa saber no detalhe. Lembremos que o salário não motiva ninguém pra ação, ok?

3-que combinados balizam a convivência harmoniosa e potente entre as pessoas com quem trabalha? está claro pra todos onde pretendem chegar trabalhando juntos? qual deve ser a razão de existir entre aqueles que se propõem viver ali? que valores todos devem defender para que as relações entre as pessoas sejam incriveis e potentes?

4-existe um objetivo comum declarado e todos ali implicados unem esforços para a sua conquista? O ambiente de trabalho é determinante para o sucesso das relações. O trabalho em equipe é o meio. E sem diálogo e confiança não tem trabalho em equipe que se sustente.

5-por fim, serenidade. Tenhamos calma. O modo aqui é mais importante que o conteúdo. Tem sido tudo tão cascudo e arrebatador nestes tempos. O que leva alguém a seguir patrocinando o caos em um cenário já tão caótico? Nietzsche disse uma vez que "quando olhamos muito para o abismo, o abismo acabará olhando para nós!" 

Precisamos nos comprometer com o contraponto e as chances de aprendizado e recriação finalmente. Eu, vc e todos nós envolvidos com algo que é muito maior que nós mesmos inclusive. Estou falando do legado que deixaremos para àqueles que não nos pediram pra nascer. Existem criaturinhas que contam conosco nessa missão. Vamos lá fazer a nossa parte. Vamos nos articular e conversar mais. Vamos fazer a diferença e, sobretudo valer tudo o que temos de especial.

Somos muito únicos e peculiares. O trabalho na Saúde não é mesmo privilégio de muitos. Vamos juntos com tudo mostrar como é que se faz. Vamos lá fazer o que será!