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Dois jogos e uma lição

Elizabeth Rodrigues Pereira [A]



Ganhar é muito bom. Ganhar é preciso.


O mundo é feito de vencedores e perdedores todos os dias. Mas talvez o que realmente nos transforme não seja a vitória, e sim aquilo que aprendemos com ela — e, principalmente, com as derrotas.


O Brasil é o único pentacampeão do mundo. É a única seleção que jamais deixou de disputar uma Copa do Mundo. Ninguém venceu mais do que o Brasil. Mas há um detalhe curioso: justamente por nunca ter faltado a uma Copa, talvez também seja a seleção que mais experimentou derrotas. Quem está sempre na disputa inevitavelmente também aprende a perder.


O Brasil sempre chega como um raio de sol vestido de verde, amarelo, azul e branco, carregando uma história que emociona gerações.


Ontem assisti a dois jogos.


No primeiro, Brasil e Noruega.


Vi uma seleção brasileira irreconhecível. Não parecia haver um time em campo. Jogadores extraordinários, que tantas vezes encantaram o mundo, não conseguiram jogar o futebol que sabem. Até aqueles que admiro profundamente, como Vini Junior, estiveram muito abaixo do que podem produzir. O Brasil permitiu que a Noruega controlasse a posse de bola, perdeu intensidade, perdeu organização, perdeu confiança.


Perdeu o jogo.


E, para minha tristeza, perdeu porque mereceu perder.


A tradição ajuda. A camisa pesa. A história inspira. Mas nenhuma dessas coisas substitui o jogo jogado. Futebol continua sendo compromisso, entrega, inteligência, suor e respeito por uma nação inteira que, por noventa minutos, para a própria vida para acreditar que existe apenas um Brasil em campo.


Depois veio México e Inglaterra.


Ali eu vi outra história.


O México entrou em campo com coragem. Correu, marcou, atacou, brigou por cada bola como se aquela partida fosse a última oportunidade de suas vidas. Vi um povo latino representado por jogadores que honravam cada centímetro do gramado, lembrando ao mundo que nossa raça também sabe lutar, competir e jogar futebol com alma.


Mas o México perdeu.


A Inglaterra jogou menos e venceu.


Ao desligar a televisão, fiquei pensando no que aqueles dois jogos tinham me ensinado.


O primeiro dizia que ninguém vence apenas pelo passado. A história não faz gols. Camisas não decidem partidas. Títulos não correm atrás da bola. Quem joga mal, normalmente perde.


O segundo lembrava que nem sempre jogar melhor é suficiente. O futebol, como a vida, também conhece a eficiência, o acaso, a frieza e os pequenos detalhes que mudam um destino inteiro.


Saí dos dois jogos com o coração apertado.


Talvez porque eu ainda não tenha aprendido a perder.


Mas, pensando melhor, talvez ninguém que ame de verdade aprenda completamente. Quem ama um time, uma seleção, uma causa ou uma profissão sempre sofre quando vê um sonho terminar.


E talvez isso também seja bonito.


Porque a dor da derrota é apenas o outro nome da esperança que tivemos antes do apito inicial.


O hexa não veio desta vez.


Mas o futebol continua nos ensinando, ano após ano, que nenhuma vitória é eterna, nenhuma derrota é definitiva e que o privilégio de vestir uma camisa — seja a da Seleção Brasileira ou a das nossas próprias convicções — exige, todos os dias, compromisso com o jogo que está sendo jogado.


A vida, afinal, não premia apenas quem tem a melhor história. Ela continua premiando quem entra em campo disposto a escrevê-la novamente.


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Elizabeth Rodrigues Pereira é administradora, especialista em Gestão Hospitalar, Gestão de Sistemas de Saúde e Gestão da Clínica nas Redes de Atenção à Saúde, com mais de 40 anos de atuação na saúde pública brasileira. Possui ampla experiência em planejamento, regulação, controle, avaliação, financiamento e organização das Redes de Atenção à Saúde, tendo exercido funções estratégicas na Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, em secretarias municipais de saúde e na gestão hospitalar. Atuou como Secretária Municipal de Saúde, Subsecretária de Planejamento e Regulação Assistencial e consultora técnica para dezenas de municípios mineiros, assessorando gestores na formulação de políticas públicas, regionalização, contratualização de serviços, planejamento, monitoramento e avaliação do SUS. Com o seu trabalho como consultora, contribui para o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à gestão do SUS, integrando conhecimento técnico, análise de dados e sistemas de informação em saúde. Também atua como palestrante, tutora e capacitadora em temas relacionados ao financiamento, planejamento, regulação, controle, avaliação e gestão do Sistema Único de Saúde. Ao longo de sua trajetória, participou ativamente das instâncias de governança do SUS, Conselhos municipais e estadual de saúde, Comissão Intergestores Bipartite, comissões técnicas sendo reconhecida nacionalmente por sua contribuição para o fortalecimento da gestão pública e da qualidade da assistência à saúde.

 
 
 

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