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A história de uma mulher que precisou se esconder para existir

Rita Santana [A]



A história de Rita de Cássia Santana de Souza Bora não começa com um diagnóstico. Começa com uma sensação constante de ser diferente em um mundo que exigia adaptação, desempenho e respostas que, para ela, nunca foram simples.


Desde a infância, os sinais estavam presentes. Dificuldades na escola, especialmente na leitura, escrita e matemática. Dificuldades na comunicação interpessoal. Uma sensação persistente de não pertencimento.


Enquanto outras crianças aprendiam com naturalidade, ela aprendia com esforço. Enquanto outras se expressavam com facilidade, ela observava — e imitava. Foi assim que começou, ainda sem nome, o mascaramento. Imitar comportamentos. Copiar falas. Ensaiar reações.


Tudo para se encaixar. Tudo para ser aceita. Mas ninguém via o esforço. Apenas viam as falhas. Vieram as reprovações escolares. Veio o rótulo de desatenção. Veio o julgamento. E, mesmo assim, sua mãe percebia: havia algo além. Buscou ajuda inúmeras vezes. Insistiu. Questionou.


Encontrou um sistema que não estava preparado para enxergar. Rita cresceu sem diagnóstico. Cresceu tentando entender o que ninguém conseguia explicar. Concluiu os estudos pelo EJA — não por falta de capacidade, mas por falta de compreensão.


Aprendeu a sobreviver. E mesmo sobrevivendo, decidiu avançar. Ingressou na faculdade de Enfermagem. Não foi fácil. Foi um caminho de extremo esforço, sobrecarga, dificuldades na aprendizagem, organização e adaptação às exigências acadêmicas.


Mas persistiu e não parou. Seguiu estudando. Realizou diversas pós-graduações. Construiu uma trajetória profissional baseada na insistência, no esforço e em um hiperfoco que, muitas vezes, era sua forma de continuar.


Mas havia um custo. Na vida adulta, o mascaramento permanecia. Agora mais sofisticado — e mais exaustivo. Veio a ansiedade. A sobrecarga. O cansaço constante de tentar ser o que esperavam.


Até que o corpo começou a falar. Durante a gestação de sua única filha, tudo se intensificou. Crises. Irritabilidade. Sofrimento profundo. E episódios extremos — como permanecer mais de uma semana sem conseguir deambular na infância.


Mesmo diante de um quadro tão significativo, a resposta foi a mesma de sempre: diagnósticos equivocados. Depressão. Mais medicação. Mais silenciamento. A polifarmácia acompanhou por muito tempo. Mas o entendimento nunca veio.


Porque ninguém estava olhando para o que realmente importava. Após anos de sofrimento, Rita fez o que já havia feito tantas vezes: buscou ajuda. Mas, dessa vez, algo foi diferente. Um psiquiatra, na rede privada, percebeu o que tantos não viram. Havia sinais de neurodivergência. Veio então o encaminhamento para avaliação neuropsicopedagógica com foco em rastreio de Transtorno do Espectro Autista. Depois, o neurologista.


E, pela primeira vez, a vida começou a fazer sentido. Não era desinteresse. Não era falha. Não era falta de esforço. Era um funcionamento neurodivergente. O diagnóstico veio: Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. ( TDAH) e Transtorno de Aprendizagem.


O diagnóstico não trouxe peso. Trouxe alívio. Trouxe respostas para uma vida inteira. Trouxe nome para dores antigas. Trouxe compreensão. E trouxe algo que talvez nunca tivesse existido antes: identidade. Pela primeira vez, não era preciso fingir. Não era preciso se esconder. O mascaramento começou a ser compreendido. E, aos poucos, deixado de lado.


E foi então que aconteceu a virada. O mesmo hiperfoco que antes servia para sobreviver passou a servir para entender. Rita mergulhou no estudo do autismo. Buscou conhecimento técnico, científico e prático. Especializou-se. Transformou dor em aprendizado. Vivência em ferramenta. História em propósito. E foi nesse processo que nasceu algo maior. Sua própria trajetória revelou uma falha grave no sistema: os profissionais não estavam preparados para identificar precocemente aquilo que sempre esteve presente.


Dessa necessidade, surgiu o UniverTEA, um projeto a ser realizado com a UniverSaúde voltado à formação em serviço de profissionais de saúde, educação, assistência social e também familiares, com o objetivo de promover o diagnóstico de transtorno de espectro autista (TEA) com critérios, responsabilidade e, principalmente, de forma precoce e com excelência.


O que antes era sofrimento individual, tornou-se compromisso coletivo. Hoje, Rita não atua apenas como profissional. Ela atua como alguém que viveu. Que sentiu. Que enfrentou. Que compreendeu. E que decidiu transformar sua história em caminho para outras pessoas.


Porque o diagnóstico tardio não apaga o passado. Mas ele muda o significado de tudo. E quando a dor encontra sentido, ela deixa de ser apenas dor. Ela se torna propósito.


E, às vezes, é isso que permite — pela primeira vez — não apenas sobreviver. Mas viver!


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[A] Rita Santana é Enfermeira, especialista em Atenção Primária à Saúde (APS), Saúde Mental e em gestão da informação em Saúde. Já foi gestora do SUS em municípios. Tem uma história bonita de ajuda na criação do e-SUS APS em 2014. Desde 2019 faz história na UniverSaúde produzindo ações de apoio, cuidado e proteção de Gestores e Profissionais de Saúde que atuam no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) de todo Brasil. Atualmente gerencia os Projetos de gestão da APS, de Gestão da Informação em Saúde e, mais recentemente, o UniverTEA.



 
 
 

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Yandra
há 2 dias
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