Gestão e Eficiência no Sistema Único de Saúde (SUS): Superando Desafios com Inovação Digital
- ericovasconcelos4

- 8 de fev.
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Erico Vasconcelos [A]

Introdução
O Estado brasileiro lida com um desafio notável: otimizar a aplicação de recursos públicos para garantir a qualidade dos serviços essenciais. No setor da Saúde, essa questão é particularmente proeminente. O Sistema Único de Saúde (SUS), reconhecido como uma das mais abrangentes iniciativas de saúde pública universal do mundo, enfrenta complexidades que impactam sua eficiência. A otimização de seus recursos é um desafio constante, influenciado por um cenário estrutural que combina as dinâmicas da gestão pública com a alocação de recursos nem sempre alinhada às necessidades técnicas.
É fundamental, neste ponto, clarificar o conceito de eficiência. No contexto da saúde, ser eficiente não significa meramente reduzir custos, mas sim maximizar os resultados assistenciais com os recursos disponíveis. Trata-se de uma equação que busca o melhor desfecho clínico e a maior satisfação do cidadão, ao mesmo tempo em que se minimizam desperdícios de tempo, materiais e verbas. A eficiência, portanto, é a ponte entre o investimento público e a qualidade do serviço efetivamente entregue à população.
Este artigo propõe uma análise construtiva dessa realidade, utilizando dados para ilustrar como a distribuição de verbas e os desafios técnicos enfrentados pelas Secretarias de Saúde podem gerar um ciclo de desperdício e impactar a qualidade assistencial. Ao mesmo tempo, o texto aponta para um horizonte de soluções, onde a tecnologia e a inovação, representadas por GovTechs como a UniverSaúde, emergem como ferramentas de apoio cruciais para fortalecer os gestores, otimizar recursos e, finalmente, auxiliar o poder público a entregar à sociedade a saúde de qualidade que ela merece e financia.
O Desafio da Eficiência no Uso de Recursos Públicos
A busca por maior eficiência nos gastos com saúde no Brasil é uma pauta central para a sustentabilidade do sistema. Organizações globais têm dedicado estudos para compreender a magnitude do desperdício de recursos no setor. Um estudo do Banco Mundial, por exemplo, apontou que uma parcela significativa da verba da União destinada ao SUS poderia ser mais bem aproveitada [1]. A Organização Mundial da Saúde (OMS) oferece uma perspectiva global, sugerindo que entre 20% e 40% de todos os gastos em saúde são impactados por algum tipo de ineficiência [2].
Em termos financeiros, o cenário se torna ainda mais claro. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) calculou que a ineficiência nos gastos públicos gerais no Brasil pode representar um montante de até US$ 68 bilhões anuais, o equivalente a 3,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país [3]. Esses números refletem oportunidades de investimento em infraestrutura, na contratação de profissionais e na melhoria geral dos serviços de saúde, que são perdidas em meio a desafios de gestão.
Fonte | Estimativa de Desperdício/Ineficiência | Impacto Financeiro (Estimado) |
Banco Mundial | Cerca de 30% da verba da União para o SUS | R$ 35,8 bilhões (apenas em 2017) [1] |
OMS | 20% a 40% dos gastos totais em saúde | - |
BID | 3,9% do PIB em gastos públicos ineficientes | Até US$ 68 bilhões por ano [3] |
Tabela 1: Síntese dos dados sobre ineficiência e desperdício em saúde pública no Brasil.
O Desafio da Alocação Estratégica de Recursos
Um dos fatores que adicionam complexidade à gestão da saúde é a crescente influência das emendas parlamentares na alocação de recursos. Embora sejam um instrumento legítimo para que parlamentares atendam a demandas de suas bases, sua aplicação pode, por vezes, distorcer o planejamento técnico e a distribuição equitativa de verbas. Um estudo aprofundado do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) ilustra essa dinâmica.
Em 2024, as emendas parlamentares representaram 10,7% de todo o orçamento executado em Saúde, um aumento expressivo em comparação aos 3,1% de 2014. Considerando apenas as despesas discricionárias, a participação dos parlamentares na decisão dos gastos alcançou 44% [4]. O ponto central da análise, como aponta o estudo, é o critério de distribuição:
"O levantamento identificou um padrão de concentração das emendas em municípios pequenos, predominantemente rurais e com melhores indicadores de saúde em comparação com municípios da mesma região. Os resultados apontaram a necessidade de que parlamentares incorporem critérios técnicos nos seus processos de tomada de decisão sobre emendas, de forma a promover uma maior desconcentração de recursos e fortalecer a atenção primária em municípios que ainda apresentam maiores desafios". [4]
Essa dinâmica evidencia que a distribuição de recursos pode seguir lógicas que não correspondem estritamente às necessidades sanitárias. Municípios com maior articulação política podem ser beneficiados em detrimento de áreas com piores indicadores de saúde, acentuando desigualdades. Adicionalmente, a alta volatilidade desses repasses, com um coeficiente de variação de 51% entre 2021 e 2024, dificulta o planejamento financeiro de médio e longo prazo por parte dos gestores municipais, que se veem diante de uma fonte de receita instável [4].
A Complexidade da Gestão e a Necessidade de Suporte Técnico
As complexidades na alocação de recursos refletem-se, muitas vezes, na própria estruturação das equipes de gestão. A nomeação para cargos de Secretários de Saúde, por vezes, prioriza articulações políticas em detrimento de perfis com vasta experiência em gestão de sistemas complexos. O resultado é um corpo de gestores que, embora bem-intencionados, enfrentam o desafio de administrar orçamentos vultosos e gerenciar equipes multidisciplinares sem, em muitos casos, disporem das ferramentas e do suporte técnico adequados para uma tomada de decisão baseada em dados.
Um estudo sobre o perfil de gestores da atenção primária revelou que uma parcela significativa não possuía formação específica em gestão de saúde [5]. Outra pesquisa apontou que apenas 32% dos gerentes de unidades de saúde dominavam os 7 indicadores de desempenho do Previne Brasil, programa que definiu até 2024 a forma como o Ministério da Saúde pautou o financiamento da atenção primária [6]. Essa lacuna de conhecimento técnico, somada à falta de ferramentas adequadas, repercute em um exemplo de uma consequência bastante direta: as Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP).
As ICSAP são hospitalizações que poderiam ser evitadas com um cuidado primário eficaz. Elas funcionam como um termômetro da eficiência do sistema na ponta. No Brasil, os números são expressivos: entre 2000 e 2022, uma em cada cinco internações (20,8%) foi por uma condição sensível, totalizando mais de 56 milhões de hospitalizações que poderiam ter sido evitadas [7]. O custo associado a essa sobrecarga para o SUS foi de R$ 258,6 bilhões no período [7].
Causa da Internação Evitável | Custo Estimado (2024) |
Asma | R$ 4,81 bilhões [8] |
Infecções de Ouvido, Nariz e Garganta | R$ 3,86 bilhões [8] |
Tabela 2: Exemplos de custos de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP).
Cada recurso gasto em uma internação evitável representa uma oportunidade perdida de investimento na prevenção e na promoção da saúde, pilares que sustentam todo o sistema.
A Transformação Digital na Saúde Pública: O Papel da UniverSaúde
Diante de um cenário tão complexo, a busca por soluções inovadoras é fundamental. É nesse contexto que o movimento GovTech, de startups que desenvolvem tecnologia para apoiar o setor público, ganha protagonismo. A UniverSaúde se posiciona como uma parceira estratégica para os gestores de saúde, que se encontram entre a pressão por resultados e a complexidade técnica de suas funções.
A proposta da UniverSaúde aborda diretamente as causas da ineficiência. Ao oferecer um sistema de gestão que auxilia os gestores a captarem mais recursos e a otimizarem seu uso com resultados rápidos, a startup provê o suporte técnico que muitas vezes falta na estrutura administrativa. O trabalho da UniverSaúde se materializa em três eixos fundamentais:
1- Inteligência na Captação de Recursos: Em vez de depender de fontes de receita voláteis, o Sistema de Gestão da UniverSaúde permite que os gestores identifiquem, com base em dados epidemiológicos e populacionais, as fontes de financiamento (federais e estaduais) mais adequadas às necessidades de seu município. O sistema transforma o processo de captação, antes reativo, em uma atividade técnica e estratégica, garantindo que o município pleiteie os recursos aos quais tem direito de forma fundamentada,
2- Gestão Eficiente e Otimização de Recursos: A plataforma oferece ferramentas para o monitoramento de indicadores de desempenho em tempo real, como as taxas de ICSAP, cobertura vacinal e acompanhamento de doentes crônicos. Isso permite que o gestor identifique gargalos operacionais, otimize a alocação de equipes e controle estoques, reduzindo o desperdício. O gestor passa a ter um painel de controle para uma tomada de decisão ágil e baseada em evidências,
3- Proteção e Apoio ao Gestor: Talvez o aspecto mais crucial seja o de servir como um escudo técnico. Ao fundamentar suas decisões e pedidos de verba nos dados e relatórios gerados pelo sistema, o gestor se fortalece diante de pressões externas e questionamentos de órgãos de controle. Ele deixa de ser um ator isolado e passa a ser um líder amparado pela técnica, capaz de dialogar com prefeitos, vereadores e com a comunidade de forma transparente e justificada.
Conclusão
A crise na saúde pública brasileira é, em sua essência, um desafio estrutural de gestão. A alocação de recursos guiada por dinâmicas que nem sempre seguem critérios técnicos e os desafios enfrentados por gestores sobrecarregados criaram um sistema que, apesar de robustamente financiado, opera com uma eficiência abaixo de seu potencial. A consequência é um ciclo onde as oportunidades de otimização perdidas hoje se refletem na falta de leitos, de medicamentos e, especialmente, na alta rotatividade de gestores da Saúde dos municípios.
Superar esse ciclo exige a adoção de ferramentas que devolvam a gestão da saúde ao domínio da técnica e da ciência de dados. A UniverSaúde e outras GovTechs representam mais do que uma modernização de processos; elas simbolizam uma mudança de paradigma. Ao empoderar o gestor municipal com dados, inteligência e estratégia, elas não apenas ajudam a otimizar o uso de recursos, mas também fortalecem a governança, a transparência e a capacidade do SUS de cumprir sua missão constitucional.
Analisar esta realidade não é um ato de pessimismo, mas um chamado à ação. É preciso que a sociedade e os agentes públicos valorizem a gestão técnica e cobrem que cada centavo investido em saúde se traduza, de fato, em mais vida e bem-estar para todos os brasileiros.
Referências
[1] Associação Médica Brasileira. (s.d.). Estudo do Banco Mundial aponta que SUS tem 30% de gasto ineficiente. Recuperado de https://amb.org.br/brasilia-urgente/estudo-do-banco-mundial-aponta-que-sus-tem-30-de-gasto-ineficiente/
[2] DRG Brasil. (2024, 18 de setembro). Custos em Saúde: Como Reduzir Desperdícios Assistenciais. Recuperado de https://www.drgbrasil.com.br/valoremsaude/custos-em-saude/
[3] Banco Interamericano de Desenvolvimento. (2019, 7 de maio). Gastos públicos ineficientes no Brasil chegam a 3,9% do PIB, diz estudo do BID. Recuperado de https://www.iadb.org/pt-br/noticias/gastos-publicos-ineficientes-no-brasil-chegam-39-do-pib-estudo-do-bid
[4] GIFE. (s.d.). Emendas na saúde. Recuperado de https://emendasnasaude.org.br/
[5] Gomes, A. P. L. N., et al. (2022). Perfil dos gestores da atenção primária em saúde, desafios e oportunidades. Comunicação em Ciências da Saúde, 33(1), 83-96. Recuperado de https://revistaccs.espdf.fepecs.edu.br/index.php/comunicacaoemcienciasdasaude/article/download/1108/585/10504
[6] Dariva, H. J. N., et al. (2024). Conhecimento dos gestores de unidades de saúde da atenção primária sobre os indicadores de desempenho do Previne Brasil. Cuadernos de Educación y Desarrollo, 16(3). Recuperado de https://ojs.cuadernoseducacion.com/ojs/index.php/ced/article/view/3807
[7] Ciência e Saúde Coletiva. (s.d.). Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária no Brasil no período de 2000 a 2022: tendências e desafios. Recuperado de https://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/internacoes-por-condicoes-sensiveis-a-atencao-primaria-no-brasil-no-periodo-de-2000-a-2022-tendencias-e-desafios/19687
[8] Barreiros, B. R. S., et al. (2024). Custos das internações hospitalares por condições sensíveis à atenção primária no Brasil, 2014-2023. Observatorio de la Economía Latinoamericana, 22(4). Recuperado de https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/olel/article/view/7145
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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 19 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da Saúde. Atualmente trabalha como Tutor do HCor em uma iniciativa do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.




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