Para Além de um “Benefício”: O Modelo 'One Health' e a Revolução na Saúde Corporativa
- ericovasconcelos4

- 25 de fev.
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Atualizado: 26 de fev.
Erico Vasconcelos [A]

Os crescentes custos com saúde têm se tornado uma preocupação central para empresas de todos os portes no Brasil. Em um cenário de alta de 327% nos planos de saúde entre 2006 e 2024 [1], a sustentabilidade financeira das organizações está cada vez mais atrelada à forma como gerenciam o bem-estar de seus colaboradores. Contudo, a resposta a este desafio não reside em cortes ou na precarização dos serviços, mas em uma profunda reestruturação do pensamento sobre saúde nas empresas. É preciso superar uma visão utilitarista e fragmentada, herdada do início do século XX, para abraçar um modelo integrado, mais humano e financeiramente sustentável.
A Herança da Fragmentação: A Lógica Utilitária das CAPS
A mentalidade que ainda hoje permeia a gestão de saúde em muitas empresas remonta a 1923, quando a Previdência Social nasceu no Brasil por meio das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPS), instituídas pelo Deputado Federal Eloy Chaves [2]. Naquela época, a preocupação central era garantir que os trabalhadores não ficassem doentes e se mantivessem ativos e produtivos. A saúde, caracterizada tão somente pela assistência médica, era vista como um "benefício" concedido para assegurar a força de trabalho, uma ferramenta para evitar a interrupção da produção.
Essa lógica, embora compreensível em seu contexto histórico, perpetuou uma visão reativa e, sobretudo, fragmentada da saúde. O foco sempre esteve na doença e no tratamento, e não na promoção do bem-estar integral do indivíduo. O resultado é um modelo que, um século depois, se mostra não apenas obsoleto, mas também financeiramente insustentável, com custos assistenciais que pressionam as finanças corporativas.
O Modelo 'One Health': Uma Resposta Integrada e Humanizada
Em contraposição a essa visão fragmentada, surge a necessidade de um olhar mais ampliado e integral. Um exemplo dessa nova abordagem é o modelo "One Health", pensado pela UniverSaúde, que propõe uma plataforma integrada para a gestão da Saúde corporativa e à produção do cuidado em saúde dos trabalhadores. Este modelo rompe com a separação tradicional entre as diversas dimensões da saúde em curso nas empresas.
O modelo 'One Health' não fragmenta as abordagens em Segurança do Trabalho, Saúde Ocupacional, Assistencial, Preventiva e Promoção da Saúde. Ele considera o ser humano em sua totalidade, em sua plenitude, oferecendo uma resposta unificada e coerente às suas necessidades na medida certa às instituições.
Esta abordagem se baseia nos preceitos da Atenção Primária à Saúde (APS) que se caracteriza por ser o primeiro ponto de contato do indivíduo com o sistema de saúde e por coordenar o cuidado de forma contínua e personalizada. Ao invés de um sistema reativo que só é acionado na doença, o modelo 'One Health' atua de forma proativa, antecipando o olhar sobre o processo saúde-doença.
Sustentabilidade e Dignidade: Os Pilares da Nova Saúde Corporativa
A implementação de um modelo integrado como o 'One Health' traz benefícios que transcendem a simples gestão de custos. Trata-se de uma proposta mais digna e respeitosa, que coloca o colaborador no centro do cuidado. Além disso, a abordagem se prova mais inteligente do ponto de vista estratégico e financeiro para as empresas, uma vez que propicia conhecimento detalhado da condição geral de vida das pessoas e predição de adoecimentos.
Coordenação do Cuidado e Redução de Custos
Ao coordenar o cuidado de forma personalizada, considerando os setores onde os trabalhadores atuam, o modelo ordena e hierarquiza a produção de assistência. Isso significa gastar mais com quem realmente precisa e menos com quem não demanda intervenções complexas. Essa racionalidade na alocação de recursos possui um impacto direto e significativo nos custos.
Benefício do Modelo 'One Health' | Impacto Estimado | Fonte |
Redução dos custos assistenciais | 30% a 40% | UniverSaúde |
Essa redução expressiva é resultado de uma gestão mais eficiente, que evita desperdícios, exames desnecessários e internações que poderiam ser prevenidas com um método e a partir de um acompanhamento próximo e contínuo. A ênfase na prevenção e na promoção da saúde diminui a sinistralidade e, consequentemente, alivia a pressão sobre os reajustes dos planos de saúde.
Um Futuro Mais Humano e Produtivo
Além da sustentabilidade financeira, o investimento em um modelo de saúde integral e humanizado gera um ciclo virtuoso dentro da organização:
• Redução do absenteísmo e do presenteísmo: Colaboradores mais saudáveis e bem-cuidados faltam menos e são mais produtivos quando presentes.
• Aumento do engajamento: O sentimento de ser cuidado e valorizado pela empresa fortalece o vínculo e o comprometimento do colaborador.
• Atração e retenção de talentos: Uma cultura de cuidado e bem-estar torna-se um poderoso diferencial competitivo na disputa pelos melhores profissionais do mercado.
• Fortalecimento da marca empregadora: A empresa passa a ser reconhecida como uma organização que genuinamente se preocupa com suas pessoas.
Em suma, a lógica assistencialista e fragmentada herdada do século passado não responde mais aos desafios do presente. É preciso coragem para romper com o modelo antigo e abraçar uma nova visão de saúde corporativa, mais estratégica, integrada e humana, como a proposta pelo modelo 'One Health'. Ao fazer isso, as empresas não estarão apenas tornando seus gastos mais enxutos e sustentáveis, mas também construindo um futuro do trabalho mais digno, saudável e próspero para todos.
Referências
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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 19 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da Saúde. Atualmente trabalha como Tutor do HCor em uma iniciativa do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.




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