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Resultados da Atenção Primária à Saúde do Brasil no 1o. quadrimeste de 2026: Avanços, desafios e oportunidades

Atualizado: 4 de jul.

Erico Vasconcelos [A]



Resumo

O Saúde Brasil 360 avalia, a cada quadrimestre, o desempenho das equipes de Atenção Primária à Saúde (APS) de todos os municípios brasileiros por meio de dois componentes: Qualidade (ICSAB — 15 indicadores de cuidado) e Vínculo e Acompanhamento Territorial (CVAT). Os resultados do 1º Quadrimestre de 2026 revelam uma trajetória de melhora consistente em relação ao 3º Quadrimestre de 2025: o score médio nacional de Qualidade avançou de 5,72 para 6,02 (escala 0–10), o score de Vínculo de 6,84 para 7,38, e o percentual de equipes com conceito ÓTIMO cresceu de 16,2% para 19,0%. A perda financeira anual acumulada — diferença entre o repasse máximo possível e o valor efetivamente recebido pelos municípios — recuou de R$ 974 milhões para R$ 904 milhões, uma recuperação de R$ 70 milhões. Contudo, persistem gargalos estruturais na saúde bucal preventiva e no cuidado ao desenvolvimento infantil, além de disparidades regionais marcantes. Com a validação adiada desta nova metodologia, os gestores municipais dispõem de uma janela estratégica para ajustar suas equipes e maximizar a captação de recursos federais antes da vigência plena das novas regras. A Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026, prorrogou o cronograma de implementação da metodologia de cofinanciamento: até o 1º Quadrimestre de 2026, todas as equipes recebem como se estivessem no conceito BOM — independentemente de sua avaliação real —, com exceção das equipes que atingirem ÓTIMO, que já passam a receber o valor máximo a partir do 2º Quadrimestre de 2026. A implementação plena, com repasse conforme a classificação real de cada equipe, está prevista apenas para o 1º Quadrimestre de 2027.

 

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Saúde Brasil 360; Portaria GM/MS nº 3.493/2024; Cofinanciamento Federal da APS; Indicadores de Qualidade; Gestão Municipal.

 

__________________________________________________________________________________

 

1. Introdução

A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a espinha dorsal do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por coordenar o cuidado longitudinal, prevenir agravos e reduzir internações por condições sensíveis à atenção primária (ICSAB). O financiamento federal da APS é regulamentado pela Portaria GM/MS nº 3.493, de 10 de abril de 2024, que instituiu a nova metodologia de cofinanciamento federal do Piso da Atenção Primária à Saúde no âmbito do SUS, substituindo o modelo anterior do Programa Previne Brasil — descontinuado por essa mesma portaria. A nova metodologia vincula diretamente o repasse mensal por equipe ao desempenho quadrimestral avaliado pelo Saúde Brasil 360 [1].

 

Nesse modelo, cada equipe de Saúde da Família (eSF) pode receber entre R$ 5.400 e R$ 13.500 mensais conforme seu conceito (Regular, Suficiente, Bom ou Ótimo), enquanto as equipes de Atenção Primária (eAP) têm repasses distintos por carga horária. A diferença entre o valor máximo possível (todas as equipes em ÓTIMO) e o valor efetivamente recebido constitui a perda financeira — recurso federal que o município deixa de captar por insuficiência de desempenho.

 

Este artigo analisa os resultados nacionais do 1º Quadrimestre de 2026 (período de referência: janeiro–abril de 2026), comparando-os com o 3º Quadrimestre de 2025 (setembro–dezembro de 2025), com o objetivo de identificar avanços, persistências e oportunidades estratégicas para a gestão municipal da APS.

 

2. Metodologia

Os dados analisados provêm do banco de dados da Plataforma Saúde Brasil 360 da UniverSaúde que processou e estruturou os microdados oficiais do Ministério da Saúde referentes à avaliação quadrimestral das equipes de APS em Junho/2026. A base contempla os 27 estados brasileiros (incluindo o Distrito Federal) e 5.565 municípios com equipes ativas no 1º Quadrimestre de 2026.

 

Os scores de Qualidade e Vínculo são calculados pela média ponderada dos conceitos obtidos pelas equipes de cada município ou estado, conforme a fórmula:

 

Score = (Regular × 0,25 + Suficiente × 0,50 + Bom × 0,75 + Ótimo × 1,00) ÷ Total de equipes avaliadas

 

Os resultados são apresentados em escala de 0 a 10. A classificação semafórica segue os thresholds estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 3.493/2024: ÓTIMO (> 7,5), BOM (5,0–7,5), SUFICIENTE (2,6–4,9) e REGULAR (< 2,5) para o componente Qualidade; e ÓTIMO (> 8,5), BOM (7,0–8,5), SUFICIENTE (5,0–6,9) e REGULAR (< 5,0) para o componente Vínculo.

 

A comparação entre períodos utiliza a variação absoluta (Δ) dos scores e dos percentuais de conceito. Os dados financeiros são estimativas baseadas na tabela de repasse vigente, calculadas como: Perda = (Valor máximo ÓTIMO − Valor atual recebido) × 12 meses.

 

3. Resultados

3.1 Panorama Nacional: Evolução dos Indicadores Agregados

O 1º Quadrimestre de 2026 consolidou uma tendência de melhora que vinha sendo observada ao longo de 2025. A Tabela 1 sintetiza os principais indicadores nacionais comparativos.

 

Tabela 1 — Indicadores Nacionais Comparativos: 3º Quad. 2025 vs. 1º Quad. 2026

Indicador

3º Quad. 2025

1º Quad. 2026

Variação (Δ)

Score médio de Qualidade (0–10)

5,72

6,02

+0,30

Score médio de Vínculo (0–10)

6,84

7,38

+0,54

% de equipes com conceito ÓTIMO (Qualidade)

16,2%

19,0%

+2,8 pp

% de equipes com conceito REGULAR (Qualidade)

29,3%

25,2%

−4,1 pp

% do potencial financeiro realizado

72,1%

74,0%

+1,9 pp

Perda financeira anual acumulada

R$ 974 milhões

R$ 904 milhões

−R$ 70 M

Total de equipes avaliadas

507.111

505.792

−1.319

Total de municípios com equipes ativas

5.569

5.565

−4

Fonte: Plataforma Saúde Brasil 360 / UniverSaúde, 2026. Base: Portaria GM/MS nº 3.493/2024. 


 

Figura 1. Indicadores nacionais comparativos entre o 3º Quadrimestre de 2025 e o 1º Quadrimestre de 2026. Da esquerda para a direita: (a) scores médios de Qualidade e Vínculo; (b) distribuição percentual de conceitos ÓTIMO e REGULAR; (c) percentual realizado e perda anual em R$ bilhões.

 

Os dados revelam que, em termos absolutos, o Brasil ainda opera com 25,2% de suas equipes de APS no conceito REGULAR — o pior nível de desempenho — e apenas 19,0% no conceito ÓTIMO. Isso significa que, de cada cinco equipes avaliadas, apenas uma atingiu o desempenho máximo que garante o repasse integral. A perda financeira acumulada de R$ 904 milhões anuais representa recursos federais disponíveis que os municípios deixaram de captar por não atingir o desempenho ÓTIMO.

 

3.2 Indicadores de Qualidade (ICSAB): Avanços e Gargalos Persistentes

A análise dos 15 indicadores do componente Qualidade revela um padrão heterogêneo de evolução, com avanços expressivos em algumas dimensões e estagnação ou retrocesso em outras.

 

 

Figura 2. Scores médios nacionais por indicador de qualidade (ICSAB), ordenados do menor para o maior score no 1º Quadrimestre de 2026. Os valores à direita indicam a variação absoluta entre os dois períodos.

 

Tabela 2 — Variação dos Indicadores de Qualidade: 3º Quad. 2025 → 1º Quad. 2026

Indicador

Score 3º Q/2025

Score 1º Q/2026

Δ

% ÓTIMO (2026Q1)


Maiores avanços

Tratamento Restaurador Atraumático

6,39

7,17

+0,78

58,4%

Mais Acesso à APS

6,05

6,59

+0,54

Proced. Odont. preventivos

3,62

4,02

+0,40

0,6%

Escovação Supervisionada

4,94

5,30

+0,36

38,7%

Cuidado da Pessoa com DM

5,56

5,84

+0,28

 

Menores variações / Atenção 

Taxa de exodontias na APS

3,55

3,59

+0,04

8,9%

1ª Consulta Odont. programada

4,88

5,00

+0,12

6,3%

Média atend. eMulti/pessoa

7,39

7,35

−0,04

32,8%

  

Gargalos críticos (score < 5,0) 

Taxa de exodontias na APS

3,55

3,59

+0,04

8,9%

Proced. Odont. preventivos

3,62

4,02

+0,40

0,6%

1ª Consulta Odont. programada

4,88

5,00

+0,12

6,3%

Cuidado no Desenv. Infantil

4,83

5,06

+0,23

3,9%

Escovação Supervisionada

4,94

5,30

+0,36

38,7%

Fonte: Plataforma Saúde Brasil 360 / UniverSaúde, 2026.

 

O avanço mais expressivo do período foi o Tratamento Restaurador Atraumático (TRA), que saltou de 6,39 para 7,17 (+0,78), atingindo 58,4% das equipes com conceito ÓTIMO — o maior percentual entre todos os indicadores. Esse resultado sugere que as equipes de saúde bucal têm respondido positivamente às orientações técnicas do Ministério da Saúde para a incorporação de tecnologias de baixa complexidade e alto impacto.

 

O indicador Mais Acesso à APS também registrou avanço relevante (+0,54) refletindo a ampliação da cobertura e da oferta de consultas na rede básica. O indicador de Procedimentos Odontológicos Preventivos, embora ainda crítico (4,02), apresentou a terceira maior melhora (+0,40), sinalizando uma possível inflexão após anos de estagnação.

 

Em contrapartida, o único indicador que apresentou retrocesso foi a Média de Atendimentos da eMulti por Pessoa (−0,04), sugerindo que as equipes multiprofissionais, apesar de manterem bom desempenho geral, reduziram marginalmente a intensidade do cuidado por usuário cadastrado. Esse dado merece atenção, pois as equipes eMulti são um componente estratégico da nova política de APS.

 

Os três indicadores mais críticos — Taxa de Exodontias (3,59), Procedimentos Odontológicos Preventivos (4,02) e 1ª Consulta Odontológica Programada (5,00) — compõem um padrão de fragilidade estrutural da saúde bucal na APS brasileira. Com apenas 0,6% das equipes em ÓTIMO para Procedimentos Odontológicos Preventivos, fica evidente que a maioria dos municípios ainda não incorporou a odontologia preventiva como prioridade da atenção básica.

 

3.3 Disparidades Regionais: Quem Avança e Quem Recua


 

Figura 3. Ranking dos 27 estados brasileiros por score de Qualidade, comparando o 3º Quadrimestre de 2025 e o 1º Quadrimestre de 2026. Os valores à direita indicam a variação absoluta.

 

A análise estadual revela disparidades regionais significativas e algumas mudanças de posição relevantes entre os dois períodos.

 

Tabela 3 — Destaque dos Extremos Estaduais: Score de Qualidade

Posição

Estado

Score 3º Q/2025

Score 1º Q/2026

Δ


Melhores desempenhos (2026Q1) 

AL (Alagoas)

6,19

6,61

+0,42

CE (Ceará)

6,24

6,61

+0,37

PI (Piauí)

6,03

6,51

+0,48

AM (Amazonas)

6,02

6,37

+0,35

PE (Pernambuco)

6,00

6,27

+0,27

 

Piores desempenhos (2026Q1) 

27º

AP (Amapá)

4,64

4,98

+0,34

26º

AC (Acre)

5,02

5,30

+0,28

25º

RO (Rondônia)

5,58

5,76

+0,18

24º

GO (Goiás)

5,76

5,78

+0,02

23º

RJ (Rio de Janeiro)

5,62

5,82

+0,20

Fonte: Plataforma Saúde Brasil 360 / UniverSaúde, 2026.

 

Destaca-se a liderança compartilhada de Alagoas e Ceará (6,61), ambos estados nordestinos com tradição de investimento na APS. O Piauí registrou o maior avanço absoluto entre os estados (+0,48), subindo da 4ª para a 3ª posição. O Distrito Federal, que liderava o ranking no 3º Quadrimestre de 2025 (6,16), recuou para a 10ª posição (6,15), sugerindo uma relativa estabilização após período de crescimento.

 

O Amapá permanece na última posição (4,98), sendo o único estado ainda abaixo de 5,0 — limiar do conceito BOM. O Acre (5,30) e Rondônia (5,76) completam os estados com maiores desafios. Chama atenção que Rio de Janeiro e Goiás, estados com maior infraestrutura urbana, figuram entre os piores desempenhos, evidenciando que o desafio da APS não é exclusivamente uma questão de desenvolvimento econômico regional.

 

3.4 Impacto Financeiro: A Perda que Pode Ser Recuperada


 

Figura 4. Top 10 estados com maior perda financeira anual acumulada, comparando o 3º Quadrimestre de 2025 e o 1º Quadrimestre de 2026. Valores em R$ milhões.

 

Tabela 4 — Top 5 Estados com Maior Perda Financeira Anual

Estado

Perda 3º Q/2025

Perda 1º Q/2026

Variação

Minas Gerais

R$ 115 M

R$ 110 M

−R$ 5 M

São Paulo

R$ 114 M

R$ 107 M

−R$ 7 M

Bahia

R$ 82 M

R$ 78 M

−R$ 4 M

Rio de Janeiro

R$ 60 M

R$ 57 M

−R$ 3 M

Maranhão

R$ 61 M

R$ 51 M

−R$ 10 M

Fonte: Plataforma Saúde Brasil 360 / UniverSaúde, 2026.

 

O Maranhão registrou a maior redução absoluta de perda financeira (−R$ 10 M), reflexo de uma melhora consistente em seus indicadores de qualidade. São Paulo (−R$ 7 M) e Minas Gerais (−R$ 5 M), os dois estados com maior número de equipes, também reduziram suas perdas, mas ainda respondem juntos por R$ 217 milhões anuais de potencial não realizado.

 

Em termos nacionais, a recuperação de R$ 70 milhões entre os dois quadrimestres representa um avanço real, mas também evidencia o tamanho da oportunidade: os R$ 904 milhões ainda perdidos anualmente são recursos federais que poderiam ser integralmente captados se todas as equipes atingissem o conceito ÓTIMO.

 

4. Discussão

4.1 Uma Trajetória de Melhora, mas Ainda Insuficiente

Os dados do 1º Quadrimestre de 2026 confirmam que o Saúde Brasil 360 está produzindo os efeitos indutores esperados: municípios que investem na qualificação de suas equipes e no cumprimento dos indicadores avaliados obtêm melhores scores e, consequentemente, maiores repasses federais. A redução de 4,1 pontos percentuais no contingente de equipes REGULAR (de 29,3% para 25,2%) é o dado mais expressivo nesse sentido — quase 1 em cada 4 equipes que antes estavam no pior conceito avançou para um nível superior.

 

Contudo, o fato de que apenas 19,0% das equipes atingiram ÓTIMO — e que o score médio nacional de Qualidade (6,02) ainda está bem abaixo do limiar de 7,5 que define esse conceito — indica que a maioria dos municípios brasileiros ainda opera em patamar de desempenho intermediário (BOM), com amplo espaço para melhora.

 

4.2 O Paradoxo da Saúde Bucal na APS

O padrão de resultados da saúde bucal merece análise específica. Com 82,0% das equipes em REGULAR para a Taxa de Exodontias e apenas 0,6% em ÓTIMO para Procedimentos Odontológicos Preventivos, fica evidente que a Odontologia na APS brasileira ainda está predominantemente orientada para o cuidado curativo-mutilador, em detrimento das ações preventivas e de promoção da saúde bucal.

 

Esse padrão não é novo — pesquisas sobre a saúde bucal no SUS apontam historicamente para a insuficiência de recursos humanos qualificados, a baixa integração das equipes de saúde bucal com as equipes de saúde da família, e a ausência de protocolos clínicos padronizados para atenção preventiva [2]. O Saúde Brasil 360 torna esse déficit financeiramente mensurável: municípios que não avançam nesses indicadores deixam de receber recursos que poderiam financiar exatamente as ações necessárias para melhorá-los.

 

O avanço do Tratamento Restaurador Atraumático (+0,78) é, nesse contexto, um sinal positivo: trata-se de uma tecnologia de baixo custo, alta efetividade e fácil incorporação na rotina das equipes de saúde bucal, que pode servir de porta de entrada para a reorientação do modelo assistencial odontológico na APS.

 

4.3 A Janela de Oportunidade: O Adiamento da Validação da nova Metodologia

Um elemento de contexto político-institucional é fundamental para compreender o momento atual da APS brasileira. A Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026, prorrogou o cronograma de implementação plena da metodologia de cofinanciamento instituída pela Portaria nº 3.493/2024, ampliando o prazo para que municípios e equipes se adaptem às novas exigências do Saúde Brasil 360 [3].

 

O cronograma de transição estabelecido é o seguinte: até o 1º Quadrimestre de 2026, todas as equipes — independentemente de sua avaliação real — recebem o repasse como se estivessem no conceito BOM. A partir do 2º Quadrimestre de 2026, as equipes que atingirem o conceito ÓTIMO passam a receber o valor máximo correspondente, enquanto as equipes em BOM, SUFICIENTE ou REGULAR continuam recebendo como BOM. A implementação plena, com repasse proporcional à classificação real de cada equipe, está prevista para o 1º Quadrimestre de 2027.

 

Essa regra de transição tem uma implicação estratégica direta: durante o período atual, as equipes em REGULAR ou SUFICIENTE estão financeiramente protegidas — recebem como BOM sem penalidade imediata. Contudo, as equipes que alcançarem ÓTIMO já são premiadas com o valor máximo de repasse. Isso cria um incentivo assimétrico poderoso: não há risco financeiro em melhorar, mas há ganho expressivo para quem atingir a excelência.

 

Esse período de transição não deve ser interpretado como uma redução de exigências, mas como uma janela estratégica de preparação. Os gestores municipais que utilizarem esse tempo para:

 

1- Qualificar suas equipes nos indicadores com menor desempenho — especialmente saúde bucal preventiva e cuidado ao desenvolvimento infantil;


2- Ampliar o número de equipes com conceito BOM e ÓTIMO, reduzindo o contingente REGULAR;


3- Fortalecer o vínculo territorial das equipes com a população adscrita, melhorando os scores de CVAT;


4- Investir em educação permanente focada nos indicadores avaliados pelo Saúde Brasil 360;

 

...estarão não apenas melhorando a qualidade do cuidado oferecido à população, mas também maximizando a captação de recursos federais antes que as regras se tornem mais exigentes.

 

A lógica é simples: cada equipe que avança de REGULAR para SUFICIENTE representa um ganho mensal de R$ 2.700 por equipe (de R$ 5.400 para R$ 8.100). De SUFICIENTE para BOM, mais R$ 2.700. De BOM para ÓTIMO, mais R$ 2.700. Um município com 10 equipes em REGULAR que as leva todas a ÓTIMO em dois anos aumenta seu repasse mensal em R$ 81.000 — R$ 972.000 anuais adicionais, sem qualquer novo aporte de recursos próprios.

 

4.4 Desigualdades Regionais e o Papel da Gestão Municipal

A análise estadual revela que os melhores desempenhos estão concentrados no Nordeste (AL, CE, PI, PE), região historicamente associada a maiores desafios socioeconômicos, mas que tem investido sistematicamente na estruturação da APS. Esse dado contraria a narrativa de que o desempenho na APS é determinado principalmente pelo nível de desenvolvimento econômico regional.

 

O que diferencia os estados líderes dos retardatários não é apenas o volume de recursos disponíveis, mas a qualidade da gestão: a capacidade de monitorar indicadores em tempo real, identificar equipes com baixo desempenho, oferecer suporte técnico e educação permanente e criar incentivos institucionais para a melhoria contínua. Plataformas como o Saúde Brasil 360 da UniverSaúde são instrumentos fundamentais nesse processo, ao tornar visíveis dados que antes estavam dispersos em sistemas de informação de difícil acesso.

 

5. Conclusões e Recomendações

Os resultados do 1º Quadrimestre de 2026 do Saúde Brasil 360 demonstram que a APS brasileira está em trajetória de melhora, mas ainda distante do potencial máximo. As principais conclusões são:

 

1. A melhora é real, mas desigual. O avanço de +0,30 no score de Qualidade e de +0,54 no Vínculo é consistente com a tendência observada ao longo de 2025, mas mascara disparidades regionais e por indicador que exigem atenção diferenciada.

 

2. A saúde bucal preventiva é o principal gargalo nacional. Com três dos cinco piores indicadores ligados à odontologia, e percentuais de ÓTIMO abaixo de 10%, esse é o campo onde a margem de melhora — e o impacto financeiro potencial — é maior.

 

3. R$ 904 milhões anuais estão disponíveis para captação. Esse é o valor que os municípios brasileiros deixaram de receber no 1º Quadrimestre de 2026 por não atingir o conceito ÓTIMO. Trata-se de recurso federal já disponível, que pode ser integralmente captado com melhora de desempenho.

 

4. O adiamento da nova metodologia é uma oportunidade, não uma folga. Gestores que utilizarem esse período para qualificar equipes e processos estarão em vantagem competitiva quando as novas regras entrarem em vigor.

 

5. A gestão baseada em dados é o diferencial dos líderes. Estados como Alagoas, Ceará e Piauí demonstram que é possível obter bons resultados mesmo com restrições estruturais, desde que haja monitoramento contínuo e foco na qualidade do cuidado.

 

Recomendações para gestores municipais:

Prioridade

Ação recomendada

Impacto esperado

Imediata

Mapear equipes em REGULAR e elaborar plano de melhora por indicador

Redução da perda financeira em 1–2 quadrimestres

Curto prazo

Investir em capacitação de equipes de saúde bucal em procedimentos preventivos

Avanço nos 3 indicadores odontológicos críticos

Médio prazo

Implementar monitoramento mensal dos indicadores do Saúde Brasil 360

Antecipação de problemas antes da avaliação quadrimestral

Estrutural

Fortalecer o vínculo territorial das equipes (CVAT) com visitas domiciliares e cadastro atualizado

Melhora sustentável do score de Vínculo

Estratégico

Utilizar o período de transição da metodologia para reestruturar equipes e processos

Posicionamento favorável para as novas regras

 

Referências

Este artigo foi produzido com base nos dados reais da Plataforma Saúde Brasil 360 da UniverSaúde, processados a partir dos microdados oficiais do Ministério da Saúde. Para fins oficiais, consulte sempre o SISAB, os dados públicos do SIAPS e o Portal da Transparência do Ministério da Saúde.

 

© 2026 UniverSaúde — Todos os direitos reservados. Reprodução permitida com citação da fonte.


[1] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.493, de 10 de abril de 2024. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 6, de 28 de setembro de 2017, para instituir nova metodologia de cofinanciamento federal do Piso da Atenção Primária à Saúde no âmbito do SUS. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2024.

[2] Pucca Junior GA, Gabriel M, de Araujo ME, de Almeida FC. Ten years of a National Oral Health Policy in Brazil: innovation, boldness, and numerous challenges. Journal of Dental Research, 94(10):1333–1337, 2015. DOI: 10.1177/0022034515599979.

[3] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026. Altera a Portaria GM/MS nº 3.493/2024 e dispõe sobre o período de implementação da metodologia de cofinanciamento federal do Piso da Atenção Primária à Saúde no âmbito do SUS. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2026.


_______________


[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 27 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da SaúdeAtualmente trabalha como Tutor do HCor em iniciativas do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.



 
 
 

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