Sistema de Custos Hospitalares como Ferramenta Estratégica para a Gestão de Instituições Filantrópicas de Saúde
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Sistema de Custos Hospitalares como Ferramenta Estratégica para a Gestão de Instituições Filantrópicas de Saúde

Marília Dias [A]


A sustentabilidade econômico-financeira das instituições hospitalares filantrópicas constitui um dos maiores desafios da gestão em saúde no Brasil, especialmente em um contexto de escassez de recursos públicos, aumento dos custos assistenciais e crescente pressão por eficiência e transparência. Nesse cenário, os sistemas de apuração de custos emergem como instrumentos estratégicos fundamentais para apoiar a tomada de decisão gerencial, a negociação com financiadores e a melhoria contínua dos serviços prestados. O presente artigo tem como objetivo discutir a importância da implantação de sistemas de custeio em hospitais filantrópicos, destacando a rotina de custos como elemento cultural da organização, a setorização hospitalar por centros de custos e a aplicação do método de custeio por absorção. Trata-se de um estudo de natureza teórico-conceitual, fundamentado na literatura da contabilidade gerencial e da gestão hospitalar. A adoção de um sistema de custos eficaz contribui para a eficiência na alocação de recursos, para a sustentabilidade institucional e para o fortalecimento da gestão baseada em evidências.



Palavras-chave: Custos hospitalares; Gestão em saúde; Contabilidade gerencial; Hospitais filantrópicos; Sustentabilidade financeira.

 

1. Introdução

A gestão de instituições hospitalares filantrópicas no Brasil apresenta elevada complexidade decorrente da combinação entre a obrigatoriedade constitucional do acesso universal à saúde, a limitação de recursos financeiros e a crescente demanda por serviços assistenciais. A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 196, que a saúde é direito de todos e dever do Estado, impondo ao sistema público e às entidades conveniadas o desafio permanente de garantir assistência integral à população.


Nesse contexto, os hospitais filantrópicos desempenham papel estratégico na rede de atenção à saúde, sobretudo no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, essas instituições enfrentam dificuldades recorrentes relacionadas ao subfinanciamento, à defasagem das tabelas de remuneração e à ausência de instrumentos gerenciais adequados para o controle e a avaliação de seus custos operacionais. Conforme ressaltam Martins (2018) e Kaplan e Cooper (1998), a falta de informações confiáveis sobre custos compromete a qualidade das decisões gerenciais e aumenta o risco de desequilíbrio financeiro.


Diante desse cenário, este artigo propõe uma reflexão teórica sobre a implantação de sistemas de apuração de custos em hospitais filantrópicos, compreendendo-os não apenas como ferramentas contábeis, mas como instrumentos estratégicos de gestão e sustentabilidade organizacional.

 

2. A rotina de custos como ferramenta cultural na gestão hospitalar

A implantação de um sistema de custos em instituições hospitalares exige mais do que conhecimento técnico; requer a construção de uma cultura organizacional orientada para a eficiência e para o uso racional dos recursos. Segundo Schein (2010), a cultura organizacional influencia diretamente a forma como os membros da organização percebem, pensam e agem diante dos problemas cotidianos.


No ambiente hospitalar, é comum que gestores e profissionais assistenciais concentrem seus esforços exclusivamente na dimensão clínica do cuidado, negligenciando os aspectos econômico-financeiros que sustentam a operação institucional. Essa dissociação contribui para o desconhecimento dos custos reais dos serviços prestados, como evidenciado em situações recentes, a exemplo da implementação do piso salarial da enfermagem, cuja viabilidade esteve condicionada ao aporte de recursos públicos extraordinários.


A incorporação da rotina de custos como prática cultural implica envolver diferentes níveis hierárquicos da organização, promovendo a compreensão de que a gestão financeira eficiente é condição necessária para a continuidade e a qualidade da assistência. De acordo com Drury (2013), a informação de custos, quando corretamente utilizada, amplia a capacidade analítica dos gestores e fortalece os processos decisórios, especialmente em ambientes de alta complexidade, como os hospitais.

 

3. Setorização hospitalar e centros de custos

A setorização hospitalar constitui etapa fundamental para a implantação de um sistema de custeio eficaz. Ela permite identificar os diversos serviços prestados pela instituição e associar a cada um deles os recursos consumidos. Conforme Leone (2012), a correta definição dos centros de custos é indispensável para o controle, a análise e a alocação racional das despesas.


No contexto hospitalar, os centros de custos podem ser classificados em três grandes grupos: administrativos, assistenciais (ou finalísticos) e auxiliares (ou de apoio). Os centros administrativos englobam as áreas responsáveis pela gestão institucional, como recursos humanos, faturamento e contabilidade. Os centros assistenciais correspondem às unidades diretamente envolvidas no atendimento ao paciente, tais como unidades de internação, centros cirúrgicos e unidades de terapia intensiva. Já os centros auxiliares prestam suporte essencial à atividade assistencial, incluindo setores como limpeza, lavanderia e nutrição.


Essa estruturação possibilita a visualização dos fluxos de recursos, a identificação de gargalos operacionais e a avaliação do desempenho de cada setor. Segundo Horngren et al. (2015), a segmentação adequada das unidades organizacionais é condição básica para a geração de informações de custos confiáveis e relevantes.

 

4. Classificação dos custos: diretos, indiretos, fixos e variáveis

Após a definição dos centros de custos, a classificação dos gastos constitui etapa essencial do processo de apuração. Os custos podem ser classificados, quanto à identificação, em diretos e indiretos, e, quanto ao comportamento, em fixos e variáveis (Martins, 2018).


Os custos diretos são aqueles que podem ser atribuídos de forma objetiva a determinado centro de custo ou serviço, como materiais e medicamentos utilizados diretamente no atendimento ao paciente. Já os custos indiretos necessitam de critérios de rateio para sua alocação, a exemplo das despesas com energia elétrica e manutenção predial.


Quanto ao comportamento, os custos fixos permanecem relativamente constantes independentemente do volume de produção, como salários administrativos, enquanto os custos variáveis se alteram conforme o nível de atividade, como insumos assistenciais. A correta classificação desses custos permite o cálculo de indicadores gerenciais relevantes, tais como custo por leito/dia, custo por paciente/dia e custo de ociosidade, amplamente utilizados na gestão hospitalar (La Forgia & Couttolenc, 2009).

 

5. Implantação do sistema de custeio por absorção

Entre os diversos métodos de custeio existentes, o custeio por absorção é amplamente adotado em instituições hospitalares, por atender às exigências legais e permitir a alocação integral dos custos aos serviços prestados. Esse método consiste em incorporar todos os custos de produção — diretos e indiretos, fixos e variáveis — aos produtos ou serviços finais (Horngren et al., 2015).


Na prática hospitalar, a aplicação do custeio por absorção exige o mapeamento da produção de cada centro de custo e a definição de critérios de rateio coerentes com a realidade institucional. Trata-se de um instrumento gerencial dinâmico, que deve ser continuamente revisado e aprimorado à medida que a organização amadurece seus processos de gestão.


Segundo Kaplan e Cooper (1998), embora métodos mais sofisticados, como o custeio baseado em atividades (ABC), ofereçam maior precisão analítica, o custeio por absorção permanece como alternativa viável e eficaz para organizações que buscam estruturar seus sistemas de informação gerencial de forma progressiva.

 

6. Considerações finais

A implantação de sistemas de apuração de custos em hospitais filantrópicos transcende a dimensão contábil, configurando-se como estratégia essencial para a sustentabilidade organizacional e a melhoria da gestão em saúde. Ao fortalecer a cultura de custos, a instituição amplia sua capacidade de planejamento, controle e avaliação de resultados, promovendo maior transparência e eficiência na utilização dos recursos.


A correta setorização hospitalar, a classificação adequada dos custos e a adoção de métodos de custeio compatíveis com a realidade institucional possibilitam a geração de informações confiáveis, fundamentais para negociações contratuais, tomada de decisão gerencial e formulação de políticas públicas. Assim, o sistema de custos hospitalares consolida-se como instrumento indispensável para garantir a continuidade da assistência, a qualidade do cuidado e o equilíbrio financeiro das organizações de saúde.


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Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

DRURY, C. Management and Cost Accounting. 8. ed. London: Cengage Learning, 2013.

HORNGREN, C. T.; DATAR, S. M.; RAJAN, M. V. Cost Accounting: A Managerial Emphasis. 15. ed. Boston: Pearson, 2015.

KAPLAN, R. S.; COOPER, R. Cost & Effect: Using Integrated Cost Systems to Drive Profitability and Performance. Boston: Harvard Business School Press, 1998.

LA FORGIA, G. M.; COUTTOLENC, B. F. Hospital Performance in Brazil: The Search for Excellence. Washington, DC: World Bank, 2009.

LEONE, G. S. G. Curso de Contabilidade de Custos. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2012.

MARTINS, E. Contabilidade de Custos. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2018.

SCHEIN, E. H. Organizational Culture and Leadership. 4. ed. San Francisco: Jossey-Bass, 2010. ___________________________________

[A] Marília Dias Gomes é formada em Ciências Contábeis e em Direito. Tem diversas especializações na área de gestão de hospitalar, possuindo experiências de mais de 15 anos na área de gestão de custos. Atualmente é uma das nossas lideranças da UniverSaúde na atuação com hospitais por todo o Brasil nos projetos de inteligência em Saúde que visam à excelência gestora por meio da conquista de mais eficiência operacional e sustentabilidade financeira.

 
 
 
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