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As 5 dores reais dos Secretários Municipais de Saúde por eles mesmos

Erico Vasconcelos [A]



A gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) na esfera municipal é uma das missões mais complexas e desafiadoras da administração pública brasileira. O Secretário Municipal de Saúde encontra-se no epicentro de um sistema que exige respostas imediatas para a população, ao mesmo tempo em que lida com restrições financeiras severas, pressões políticas e fragilidades estruturais de governança.

 

Com base em pesquisas recentes, incluindo o levantamento inédito do Índice de Excelência em Gestão do SUS (IEG-SUS) conduzido pela UniverSaúde em 2026 [1], e dados do Conselho de Secretários Municipais de Saúde (COSEMS) [2], este conteúdo mapeia de forma prática e objetiva as 5 principais dores enfrentadas por esses gestores no seu cotidiano.

 

1. O "Apagão de Gestão": Decisões no Escuro e Falta de Dados

A maior dor silenciosa do gestor de saúde é a incapacidade de planejar devido à ausência de informações estruturadas. Segundo a pesquisa IEG-SUS, quase metade dos municípios brasileiros administra a saúde "no escuro" [1].

 

A falta de dados consolidados impede que o gestor saiba exatamente onde os recursos estão sendo alocados e onde ocorrem os maiores desperdícios. Cerca de 48% das secretarias não possuem indicadores organizados e 53% dos gestores afirmam não conhecer os centros de custos de suas unidades assistenciais [1]. Na prática, isso significa que o Secretário toma decisões baseadas na intuição ou na pressão do momento, perdendo a capacidade de priorizar investimentos e corrigir distorções operacionais.

 

Impactos da Falta de Dados

Consequências Práticas para o Gestor

Desconhecimento de custos

Impossibilidade de identificar desperdícios e otimizar o uso dos recursos financeiros.

Ausência de indicadores

Dificuldade em monitorar o desempenho das equipes e a qualidade do atendimento.

Perda de repasses federais

O não cumprimento de metas estabelecidas por portarias ministeriais resulta em perda de financiamento crucial para o município.

2. A Gestão Pautada pela Urgência: A Síndrome de "Apagar Incêndios"

O cotidiano de um Secretário de Saúde é frequentemente dominado pelo senso de urgência. O estudo da UniverSaúde revela que 78% dos gestores municipais de saúde afirmam atuar em modo de urgência permanente, vivendo uma "crise diária" [1].

 

Essa dinâmica reativa suga a energia do gestor, que passa seus dias resolvendo problemas operacionais imediatos — como a falta de um médico no plantão, a quebra de um equipamento ou a superlotação de uma unidade de urgência — e não encontra tempo ou estrutura para implementar um planejamento estratégico de médio e longo prazo. A consequência direta é o esgotamento físico e mental ("Burnout") e a sensação de enxugar gelo, onde os mesmos problemas se repetem ciclicamente.

 

3. Alta Rotatividade e Descontinuidade Administrativa

A cadeira de Secretário Municipal de Saúde é uma das mais instáveis da gestão pública. Mensalmente, cerca de 300 gestores são substituídos no Brasil [3]. No estado de São Paulo, o COSEMS/SP registrou 175 trocas de gestores apenas entre fevereiro e dezembro de 2025 [2].

 

A pesquisa IEG-SUS corrobora essa realidade, apontando que 65% dos gestores estão há menos de um ano no cargo [1]. Essa alta rotatividade gera uma descontinuidade administrativa devastadora. A cada troca de comando, o conhecimento acumulado se perde, projetos estratégicos são interrompidos e as equipes precisam se adaptar a novas diretrizes. Para o gestor que assume, a dor é herdar um sistema desorganizado, muitas vezes com dívidas e processos paralisados, precisando "recomeçar do zero" sob a mesma pressão por resultados imediatos.

 

4. Pressão Política e a Solidão do Cargo

O Secretário de Saúde atua em um ambiente de forte pressão cruzada. De um lado, a população (e frequentemente a mídia local) cobra atendimento ágil, redução de filas e disponibilidade de medicamentos. Do outro, o Prefeito exige resultados rápidos e visíveis que gerem capital político, muitas vezes sem compreender o tempo de maturação necessário para as políticas de saúde pública [3].

 

Além disso, o gestor lida com a interferência política na nomeação de cargos, nas prioridades de atendimento e na alocação de recursos. Essa dinâmica gera um sentimento de isolamento institucional, onde o Secretário se vê responsabilizado por todas as falhas do sistema, mas raramente possui autonomia plena ou apoio estrutural para implementar as mudanças necessárias.

 

5. Dificuldades na Gestão de Pessoas e Fixação de Profissionais

A gestão do trabalho no SUS municipal é um desafio constante. Os Secretários enfrentam imensas dificuldades para atrair e fixar profissionais qualificados, especialmente médicos, em áreas periféricas ou de difícil acesso [4].

 

A disputa de mercado com o setor privado e com municípios vizinhos que oferecem salários maiores cria um cenário de leilão de profissionais. Além disso, a precarização dos vínculos trabalhistas, a insatisfação das equipes com as condições de infraestrutura e a necessidade de lidar com profissionais desmotivados ou sobrecarregados tornam a gestão de recursos humanos uma fonte diária de conflitos e dores de cabeça para o Secretário.

 

Conclusão

As dores dos Secretários Municipais de Saúde vão muito além da simples falta de dinheiro. O verdadeiro gargalo reside na ausência de ferramentas de governança, na descontinuidade política e na sobrecarga gerada por um sistema que opera no limite da urgência. Para que o SUS municipal "pare de pé", é imperativo que os gestores recebam apoio estrutural, metodológico e tecnológico, permitindo a transição de uma gestão reativa e cega para uma administração profissional, baseada em dados e focada na sustentabilidade a longo prazo.


Referências

[1] Teresina Diário. (2026). Metade dos municípios administra o SUS sem planejamento, revela estudo. Disponível em: https://www.teresinadiario.com/materia/6549teresina/katya-d-angelles/metade-dos-municipios-administra-o-sus-sem-planejamento-revela-estudo.html [2] COSEMS/SP. (2026). Alta rotatividade marca o primeiro ano do mandato municipal na saúde paulista. Disponível em: https://www.cosemssp.org.br/noticias/alta-rotatividade-marca-o-primeiro-ano-do-mandato-municipal-na-saude-paulista/ [3] UniverSaúde. (2026). Por quê o Secretário Municipal de Saúde cai? O desafio da alta rotatividade dos Gestores do SUS no Brasil. Blog UniverSaúde. Disponível em: https://www.universaude.com.br/post/por-qu%C3%AA-o-secret%C3%A1rio-municipal-de-sa%C3%BAde-cai-o-desafio-da-alta-rotatividade-dos-gestores-do-sus-no-b [4] Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). (2012). A atuação do gestor municipal não deve prescindir dos valores e princípios que estão colocados para o sistema público de saúde. Disponível em: https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/a-atuacao-do-gestor-municipal-nao-deve-prescindir-dos-valores-e-principios-que


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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 27 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da SaúdeAtualmente trabalha como Tutor do HCor em iniciativas do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.


 
 
 

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