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Quem são e o que pensam os Secretários de Saúde dos municípios brasileiros

Erico Vasconcelos [A]



O Secretário Municipal de Saúde (SMS) ocupa posição estratégica na consolidação e governança do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Com o aprofundamento da descentralização política e administrativa promovida pela Constituição Federal de 1988, os gestores locais tornaram-se os principais responsáveis pela execução das políticas de saúde nos territórios, enfrentando um cenário complexo de demandas crescentes e recursos limitados. Este artigo apresenta uma revisão dissertativa das evidências mais recentes da literatura científica sobre o perfil desses gestores, destacando suas principais características sociodemográficas e profissionais, bem como as necessidades, limitações e desafios inerentes à função. A análise aponta para uma progressiva feminização e especialização do cargo, acompanhada por expressiva rotatividade e dificuldades estruturais ligadas ao financiamento, à judicialização e às relações interfederativas. Conclui-se que o sucesso da gestão municipal depende não apenas das competências individuais do secretário, mas fundamentalmente do fortalecimento das instâncias de pactuação regional, da garantia de financiamento sustentável e do apoio institucional contínuo.


Palavras-chave: Sistema Único de Saúde; Gestão em Saúde; Secretários Municipais de Saúde; Política de Saúde; Administração Pública; Descentralização.


1.Introdução

A institucionalização do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da Constituição Federal de 1988 representou um marco na organização político-administrativa brasileira, ao consagrar a saúde como direito de todos e dever do Estado e ao garantir maior autonomia aos entes subnacionais na condução das políticas públicas. Nesse contexto, a descentralização transferiu para os municípios a responsabilidade primária pela execução e gestão das ações e serviços de saúde, consolidando o município como o principal locus de implementação do sistema [1] [2]. Consequentemente, o cargo de Secretário Municipal de Saúde foi alçado a uma posição de centralidade, tornando esses profissionais atores políticos e técnicos estratégicos na formulação e implementação das políticas públicas de saúde locais e regionais [3].

Apesar da importância inegável da função, a gestão municipal em saúde ocorre em um ambiente caracterizado por profunda heterogeneidade. Os 5.570 municípios brasileiros apresentam disparidades significativas em termos de capacidade instalada, arrecadação tributária, porte populacional e disponibilidade de recursos humanos [4]. Essa diversidade territorial se reflete diretamente nas condições de exercício do cargo de secretário, que variam desde municípios com estruturas robustas e equipes técnicas qualificadas até localidades onde o gestor acumula funções e dispõe de recursos mínimos para a operação do sistema.

Compreender quem são os indivíduos que assumem o comando das secretarias municipais de saúde, quais são suas trajetórias profissionais e políticas e como percebem os desafios do sistema é, portanto, fundamental para o aprimoramento das políticas de fortalecimento da gestão do SUS. Conforme apontam Fleury [5] e Ouverney et al. [3], a análise do perfil dos gestores permite identificar tendências de democratização do acesso ao cargo, mapear lacunas de capacitação e subsidiar estratégias de apoio institucional mais efetivas.

O presente estudo tem como objetivo dissertar sobre o perfil dos Secretários Municipais de Saúde no Brasil, baseando-se nas evidências mais recentes da literatura científica. A análise abrange as características demográficas e profissionais desses gestores, as necessidades referidas para o sucesso de suas administrações, as principais limitações e desafios que interferem no desenvolvimento de seus projetos, bem como os fatores que mais contribuem ou obstaculizam a efetividade da gestão local do SUS.


2.Percurso Metodológico

Este texto consiste em uma revisão narrativa da literatura, método adequado para a síntese de conhecimentos sobre temas amplos e multifacetados, permitindo a integração de diferentes tipos de evidências [6]. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados SciELO, PubMed/LILACS e Google Scholar, utilizando os descritores "secretário municipal de saúde", "gestor municipal de saúde", "perfil do gestor SUS", "gestão municipal do SUS" e seus equivalentes em inglês. Foram priorizados estudos publicados entre 2019 e 2026, embora referências seminais anteriores tenham sido incluídas quando necessárias para a contextualização histórica. Complementarmente, foram consultados documentos institucionais do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), dos Conselhos de Secretários Municipais de Saúde estaduais (COSEMS) e do Ministério da Saúde.

Os critérios de inclusão abrangeram artigos originais, revisões, ensaios e documentos técnicos que abordassem o perfil sociodemográfico, profissional e político dos secretários municipais de saúde, bem como os desafios, necessidades e limitações da gestão municipal do SUS. Foram selecionadas as fontes mais relevantes e recentes, com ênfase em pesquisas de abrangência nacional ou que trouxessem contribuições analíticas significativas para a compreensão do tema.


3.O Perfil Sociodemográfico e Profissional dos Secretários Municipais de Saúde do Brasil


3.1. Feminização da gestão

Estudos longitudinais e transversais recentes têm demonstrado transformações substanciais no perfil dos ocupantes do cargo de Secretário Municipal de Saúde ao longo das últimas três décadas. Uma das mudanças mais marcantes e consistentemente documentadas é a progressiva feminização da gestão em saúde. De acordo com dados analisados por Riquieri et al. [1], a proporção de mulheres no comando das secretarias municipais de saúde passou de 39,7% em 1996 para 58% em 2017, evidenciando uma inversão histórica que acompanha tendências mais amplas de inserção feminina nos espaços de poder e decisão no Brasil. Esse fenômeno está fortemente associado à predominância de profissionais da enfermagem assumindo cargos de liderança, categoria historicamente composta em sua maioria por mulheres e com forte inserção na Atenção Primária à Saúde [3].

A pesquisa conduzida pelo CONASEMS em parceria com a Universidade Federal da Paraíba, que alcançou 3.899 gestores (70% do total nacional), confirmou essa tendência, revelando que a feminização é mais acentuada nas regiões Sul (60%), Centro-Oeste (61%) e Sudeste (58%), sendo a região Nordeste a exceção, onde os homens ainda predominam (61%) [7]. Ouverney et al. [3] sintetizam que o perfil médio do secretário municipal de saúde no Brasil contemporâneo é o de "uma mulher branca, com aproximadamente 50 anos e pós-graduada, provavelmente formada em enfermagem e que já atuou na atenção básica antes de assumir a gestão".


3.2.Qualificação acadêmica e profissional

Em relação à qualificação profissional, a literatura evidencia um aumento significativo e contínuo na escolaridade dos gestores. Atualmente, mais de 80% dos secretários municipais possuem ensino superior completo, sendo que quase metade (47,7%) detém título de pós-graduação [1]. Esse dado representa uma transformação expressiva em relação ao cenário da década de 1990, quando parcela considerável dos gestores não possuía formação superior.

A área de formação também sofreu alterações profundas ao longo do tempo. A proporção de médicos ocupando o cargo de secretário caiu vertiginosamente, passando de 31,2% na década de 1990 para apenas 3,3% em anos recentes [1]. Em contrapartida, cresceu a participação de enfermeiros (cerca de 26%) e de profissionais com formação em áreas da administração, gestão pública e outras profissões de saúde [3]. Essa transição reflete, em parte, a maior disponibilidade e inserção dos enfermeiros nos serviços de Atenção Primária, que constitui a porta de entrada preferencial do sistema e o nível de atenção sob responsabilidade direta dos municípios.


3.3.Experiência prévia e motivação para o cargo

Outro aspecto relevante destacado pela literatura é a experiência prévia dos gestores. A maioria dos secretários assume a função pela primeira vez (cerca de 56%), tendo frequentemente acumulado experiência anterior na coordenação da Atenção Básica ou em cargos técnicos nas secretarias de saúde [3]. A pesquisa do CONASEMS revelou que as principais motivações declaradas para assumir o cargo foram "fortalecer o SUS" (80%) e "servir à cidade" (76%), evidenciando um discurso de comprometimento com a missão pública [7].

No que se refere aos critérios de nomeação, a pesquisa revela que a escolha do secretário está fortemente atrelada à confiança pessoal do prefeito (64%), aliada à capacidade de liderança e à competência técnica [3]. Esse dado é corroborado por Brancaglion, Soares e Bahia [8], que demonstram que, mesmo em cargos de indicação política, há uma expressiva "especialização" do perfil. Em estudo que analisou 53 currículos de secretários estaduais e de capitais em 2021, os autores encontraram que 79% foram categorizados como "especializados" e 75% eram profissionais de saúde. Dos treze políticos de carreira identificados, onze também foram tipificados como especializados, desmistificando a falsa dicotomia entre perfis puramente "técnicos" versus "políticos" e sugerindo que a saúde se apresenta, simultaneamente, especializada e politizada [8].


3.4. Diversidade étnico-racial

Do ponto de vista étnico-racial, embora ainda exista uma predominância de gestores autodeclarados brancos (59% em 2017), os estudos apontam para uma gradual diversificação, com o aumento expressivo de gestores pardos e pretos, que passaram de 11,5% em 1996 para 35,5% em 2017 [1]. Apesar desse avanço, Ouverney et al. [3] alertam que a abertura do cargo para gestores negros ainda é insuficiente, reforçando a necessidade de ampliar as políticas de acesso dessa parcela da população ao ensino superior nas áreas da saúde e aos espaços de poder decisório.

A tabela a seguir sintetiza as principais características do perfil dos Secretários Municipais de Saúde, com base nas evidências mais recentes:

Característica

Predominância Atual

Tendência Histórica

Gênero

Feminino (58%)

Feminização crescente (era 39,7% em 1996)

Faixa Etária

30 a 50 anos (média ~50 anos)

Estabilidade com leve envelhecimento

Raça/Cor

Branca (59%), Pardos/Pretos (35,5%)

Aumento da diversidade étnico-racial

Escolaridade

Superior Completo (80,8%) e Pós-Graduação (47,7%)

Aumento contínuo da qualificação formal

Formação

Enfermagem (~26%), Administração e outras áreas

Queda drástica de médicos (de 31,2% para 3,3%)

Experiência

Primeira vez no cargo (56%), egressos da Atenção Básica

Profissionalização da base do sistema

Motivação

"Fortalecer o SUS" (80%) e "Servir à cidade" (76%)

Discurso de comprometimento público

Critério de nomeação

Confiança do prefeito (64%) + competência técnica

Manutenção da indicação política com especialização

4.Necessidades referidas para o sucesso da Gestão

Para que suas gestões sejam bem-sucedidas, os Secretários Municipais de Saúde apontam um conjunto articulado de necessidades que abrangem dimensões estruturais, políticas, técnicas e de capacitação. A literatura identifica que a efetividade da gestão local depende fortemente do apoio interfederativo, da qualificação das equipes técnicas e da estabilidade institucional [3] [7].


4.1. Financiamento estável e sustentável

A principal necessidade referida pelos gestores é a garantia de um financiamento estável e sustentável para o SUS. Segundo a Pesquisa Nacional dos Gestores Municipais, 68% dos secretários apontam o aperfeiçoamento do padrão de gasto tripartite e dos processos de transferência de recursos como condição fundamental para o êxito de suas administrações [3]. Os gestores demandam, especificamente do Ministério da Saúde, a ampliação do apoio financeiro para programas estratégicos voltados à melhoria do acesso da população aos serviços (73% dos respondentes) e o investimento na melhoria dos sistemas de informação para a tomada de decisão (31%) [3].

No que se refere às Secretarias Estaduais de Saúde também, as prioridades incluem a ampliação do financiamento para melhoria do acesso (66%), a garantia de acesso a consultas, internações, exames e medicamentos especializados (58%) e a implementação de processos amplos de capacitação dos gestores municipais (38%) [3]. Esses dados revelam que os secretários percebem a necessidade de um compromisso financeiro mais robusto e previsível por parte dos demais entes federativos, sem o qual a gestão local permanece refém de incertezas orçamentárias.


4.2.Qualificação das equipes gestoras

No âmbito da capacidade técnica, os secretários destacam a urgência na qualificação das equipes gestoras municipais para a prática do planejamento em saúde, necessidade apontada por 66% dos gestores [3] [7]. A gestão contemporânea do SUS exige domínio sobre instrumentos complexos de planejamento (Plano Municipal de Saúde, Programação Anual de Saúde, Relatório Anual de Gestão), monitoramento de indicadores, prestação de contas e uso de sistemas de informação. Muitos secretários, especialmente aqueles que assumem o cargo pela primeira vez, relatam dificuldades em operacionalizar esses instrumentos sem o suporte de equipes técnicas qualificadas.

Nesse sentido, estratégias de Educação Permanente em Saúde (EPS) e o Apoio Institucional, promovidos por entidades como os COSEMS e o CONASEMS, são percebidos como essenciais para o aprimoramento da gestão [9] [10]. Ferraz et al. [10] demonstram que a EPS constitui uma estratégia potente de fortalecimento na formação e atuação de equipes gestoras municipais, contribuindo para a construção de competências coletivas que transcendem a figura individual do secretário e conferem maior resiliência institucional às secretarias.


4.3.Fortalecimento da governança regional

Os gestores referem, ainda, a necessidade premente de fortalecimento das instâncias de governança regional, em especial as Comissões Intergestores Regionais (CIR). Para 56% dos secretários, o fortalecimento das CIR como instâncias de planejamento e pactuação é uma prioridade estratégica [3], pois é neste espaço que se busca resolver os vazios assistenciais que o município, isoladamente, não tem capacidade de suprir. A qualificação das atividades das CIR e a ampliação do papel dos COSEMS nas regiões de saúde são percebidas como condições necessárias para a efetivação da regionalização, princípio organizativo do SUS que permanece como um dos mais desafiadores em sua implementação [3].


4.4.Diálogo interinstitucional

Por fim, os secretários apontam como necessidade crítica a ampliação do diálogo com os órgãos de controle externo e com o Poder Judiciário. Para 64% dos gestores, é fundamental que essas instâncias ampliem seu conhecimento sobre a dinâmica e as normativas de gestão do SUS [3], de modo a evitar decisões que, embora bem-intencionadas, possam desorganizar a programação orçamentária e assistencial dos municípios. A qualificação dos conselheiros de saúde (43%) e o fortalecimento dos mecanismos de participação social também figuram entre as necessidades referidas [3].


5.Limitações e desafios que interferem no desenvolvimento dos projetos

A despeito da crescente qualificação técnica dos secretários, a implementação de projetos e políticas de saúde nos municípios esbarra em barreiras estruturais crônicas e em dinâmicas político-institucionais que limitam severamente a capacidade de ação dos gestores. O cenário é frequentemente descrito na literatura como um "contexto dual de gestão", onde coexistem avanços na institucionalidade do SUS e a persistência de disparidades regionais e subfinanciamento [3].


5.1.Subfinanciamento e dificuldade de acesso à média e alta complexidade

A limitação mais severamente sentida pelos gestores é a insuficiência de recursos financeiros aliada à dificuldade de garantir o acesso da população à atenção especializada. Para 71% dos gestores em âmbito nacional, a garantia de consultas, exames e internações em quantidade e qualidade adequadas representa o maior gargalo do sistema [3]. Essa dificuldade expõe a fragilidade da coordenação estadual e as falhas no processo de regionalização, obrigando frequentemente os municípios a arcarem com custos que fogem à sua competência primária ou a lidarem com a insatisfação direta dos munícipes.

O subfinanciamento crônico do SUS, agravado pela Emenda Constitucional no. 95/2016 (que estabeleceu um teto de gastos públicos por vinte anos) e a imprevisibilidade dos repasses federais e estaduais comprometem o planejamento de longo prazo e a execução de novos projetos [4] [11]. Bousquat et al. [4] destacam que a despesa pública com saúde no Brasil permanece aquém do necessário para garantir a universalidade e a integralidade preconizadas pelo sistema, situação que recai de forma desproporcional sobre os municípios, que já respondem por parcela significativa do gasto total em saúde.


5.2.Rotatividade e instabilidade político-administrativa

Um dos fatores que mais atrapalha o bom desenvolvimento de projetos na gestão municipal é a altíssima rotatividade dos secretários de saúde, fenômeno documentado como estrutural e recorrente no sistema de saúde brasileiro. Dados recentes do COSEMS do Estado de São Paulo revelam a magnitude do problema: apenas no primeiro ano do mandato municipal de 2025, foram contabilizadas 175 trocas de gestores em 130 municípios paulistas, excluindo-se as trocas naturais de transição de governo em janeiro, quando 302 municípios substituíram seus secretários [12]. No ciclo anterior (2021-2024), 83% das cidades do estado trocaram de secretário ao menos uma vez, totalizando 644 substituições em 535 municípios, com casos extremos de até oito mudanças no comando da saúde em um único município ao longo de quatro anos [12].

Essa instabilidade, muitas vezes motivada por ajustes político-partidários, pressões do cargo ou reorganizações internas das prefeituras, provoca rupturas na continuidade das políticas públicas, perda de memória institucional e paralisação de projetos estratégicos. A análise institucional conduzida por Malaman e Spagnol [11] aponta que a atuação do secretário é frequentemente tensionada pelas forças políticas locais, especialmente prefeitos e vereadores, limitando sua autonomia técnica e submetendo a agenda da saúde a lógicas político-eleitorais de curto prazo. Padilha [9] reforça que a alta rotatividade constitui um dos principais desafios para a consolidação da gestão municipal, justificando a necessidade de estratégias permanentes de apoio institucional que garantam a continuidade das políticas independentemente das trocas de comando.


5.3 Judicialização da saúde e relação com órgãos de controle

A judicialização da saúde constitui outro desafio de grande magnitude para os secretários municipais. Os gestores frequentemente se veem obrigados a desviar recursos do orçamento planejado para o cumprimento de mandados judiciais, geralmente relacionados ao fornecimento de medicamentos de alto custo, insumos especiais ou procedimentos não padronizados nas listas do SUS. Essa dinâmica compromete a programação orçamentária e pode gerar desassistência em outras áreas prioritárias, configurando o que a literatura denomina de "efeito cascata" da judicialização sobre a gestão [3].

Para mitigar esse problema, 64% dos gestores apontam a necessidade urgente de ampliar o conhecimento do Poder Judiciário e dos órgãos de controle sobre a dinâmica e as normativas de gestão do SUS [3]. A relação muitas vezes punitiva e fiscalizatória, sem o correspondente apoio técnico, gera o que pode ser descrito como uma "paralisia decisória", na qual o receio de responsabilização pessoal inibe a inovação na gestão e a tomada de decisões que, embora tecnicamente justificáveis, possam ser questionadas por instâncias externas.


5.4.Gestão do trabalho e fixação de profissionais

A fixação e o provimento de profissionais de saúde, especialmente médicos, em áreas remotas ou de alta vulnerabilidade social, permanece como uma limitação central da gestão municipal. Mais da metade dos gestores (53%) aponta a dificuldade em implementar e pactuar diretrizes para políticas de educação e gestão do trabalho que favoreçam a fixação de trabalhadores nos municípios [7]. Adicionalmente, 43% dos secretários enfatizam problemas relacionados à implementação ou reformulação de Planos de Cargos, Carreiras e Salários, instrumento essencial para a valorização e retenção dos profissionais [7].

A precarização dos vínculos trabalhistas, a competição com o setor privado e a ausência de políticas efetivas de interiorização de profissionais especializados agravam esse cenário, afetando diretamente a qualidade e a continuidade do cuidado na Atenção Primária à Saúde [3] [4].


5.5.Fragilidade da participação estadual

Um achado particularmente relevante na literatura é a percepção dos secretários municipais sobre a ausência ou insuficiência do papel dos governos estaduais na coordenação do sistema. Ouverney et al. [3] identificaram que, na percepção dos gestores, as forças que mais influenciam sua tomada de decisão são os prefeitos, os conselhos de saúde e o Ministério da Saúde, sendo "preocupante a ausência do Estado nesse contexto". Essa lacuna na atuação estadual compromete a efetivação da regionalização e sobrecarrega os municípios, que passam a buscar soluções bilaterais diretamente com o governo federal, perpetuando o que a literatura denomina de "polarização federativa" do SUS [2].


6.Discussão

A análise integrada das evidências permite identificar um paradoxo central na gestão municipal do SUS: ao mesmo tempo em que o perfil dos secretários se torna progressivamente mais qualificado e especializado, as condições estruturais e político-institucionais em que operam permanecem marcadas por precariedade e instabilidade. Esse descompasso sugere que os investimentos em capacitação individual, embora necessários, são insuficientes para transformar a realidade da gestão sem o correspondente fortalecimento das bases institucionais do sistema.

A feminização do cargo, por exemplo, embora represente um avanço na democratização dos espaços de poder, ocorre em um contexto onde as mulheres gestoras enfrentam desafios adicionais relacionados à sobrecarga de trabalho, à menor valorização salarial e às barreiras de gênero na interlocução política [1] [3]. Da mesma forma, a especialização acadêmica dos secretários coexiste com a manutenção de lógicas de indicação política que podem subordinar a agenda técnica aos interesses partidários de curto prazo [8].

Os dados sobre rotatividade são particularmente alarmantes, pois revelam que a gestão municipal da saúde opera em um regime de permanente instabilidade que compromete qualquer projeto de médio ou longo prazo. A estratégia de Apoio Institucional desenvolvida pelos COSEMS e pelo CONASEMS [9] emerge como uma resposta institucional relevante a esse problema, ao criar uma rede de suporte técnico e político que transcende as mudanças de gestão e garante algum grau de continuidade nas políticas pactuadas regionalmente.

Por fim, é necessário reconhecer que os desafios enfrentados pelos secretários municipais de saúde não são meramente gerenciais, mas refletem contradições mais profundas do federalismo brasileiro e do modelo de financiamento do SUS. A superação desses obstáculos exige, portanto, reformas estruturais que vão além do âmbito municipal, incluindo a revisão do pacto federativo em saúde, a garantia de financiamento adequado e a valorização efetiva da gestão pública como atividade profissional.


7.Considerações Finais

O perfil do Secretário Municipal de Saúde no Brasil reflete as transformações sociais e institucionais pelas quais o país e o SUS passaram nas últimas décadas. O cargo, hoje predominantemente ocupado por mulheres, profissionais da enfermagem, com alta escolaridade e experiência na base do sistema, demonstra uma clara tendência de profissionalização e especialização da gestão pública em saúde. A superação da falsa dicotomia entre perfis "técnicos" e "políticos", evidenciada pela literatura, sugere que a gestão em saúde demanda, simultaneamente, competência técnica e habilidade política, configurando um campo de atuação intrinsecamente híbrido.

Para que as gestões sejam bem-sucedidas, os secretários referem necessitar, acima de tudo, de um financiamento tripartite equânime e sustentável, da qualificação contínua de suas equipes técnicas, do fortalecimento das instâncias de governança regional e de um diálogo mais qualificado com os órgãos de controle e o Poder Judiciário. Essas necessidades convergem para uma agenda de fortalecimento institucional que transcende a figura individual do gestor e aponta para a construção de capacidades coletivas e permanentes nas secretarias municipais de saúde.

Por outro lado, o que mais interfere e inviabiliza o desenvolvimento de projetos a longo prazo é a conjunção entre a altíssima rotatividade nos cargos, movida por instabilidades políticas e ciclos eleitorais, o subfinanciamento crônico do sistema, a pressão desestruturante da judicialização, a dificuldade de fixação de profissionais e a fragilidade da atuação estadual na coordenação das redes de atenção. Superar esses desafios exige o fortalecimento dos mecanismos de governança regional, a ampliação do diálogo interinstitucional, o aprofundamento das estratégias de apoio institucional e, sobretudo, a garantia de que o SUS municipal possa operar com a estabilidade, a previsibilidade e a eficiência que a população brasileira demanda e merece.

Neste cenário de complexidade e restrição de recursos, iniciativas de apoio gerencial têm se mostrado fundamentais. Destaca-se a relevância do trabalho de instituições como a UniverSaúde, que atua como uma parceira estratégica para as Secretarias Municipais de Saúde em todo o Brasil. Por meio da implantação de sistemas de gestão que aliam tecnologia de ponta e um método próprio centrado na medição de dados e análise de resultados, a UniverSaúde apoia os projetos dos Secretários na conquista da excelência gestora e da sustentabilidade financeira [13]. A aplicação do Índice de Excelência Gestora (IEG) permite às secretarias diagnosticar gargalos operacionais, reduzir desperdícios e ampliar o acesso da população aos serviços, notadamente na Atenção Primária e nas redes de urgência e emergência. Ao preparar os municípios para novos modelos de financiamento e certificações de qualidade, a UniverSaúde contribui para profissionalizar a gestão, entregando os resultados de eficiência e resolutividade que os Prefeitos almejam e que a sociedade necessita.


Referências

[1]: Riquieri, M. R. L., Carvalho, A. L. B., Ouverney, A. L. M., & Sarti, T. D. (2022). Perfil dos secretários municipais de Saúde do Brasil: um panorama de três décadas. Revista de Administração Pública, 56(5), 683-693. https://doi.org/10.1590/0034-761220220132

[2]: Ouverney, A. M., & Fleury, S. (2017 ). Polarização federativa do SUS nos anos 1990: uma interpretação histórico-institucionalista. Revista de Administração Pública, 51(6), 1085-1103. https://doi.org/10.1590/0034-7612162798

[3]: Ouverney, A. L. M., Carvalho, A. L. B., Machado, N. M. S., Moreira, M. R., & Ribeiro, J. M. (2019 ). Gestores municipais do Sistema Único de Saúde: perfil e perspectivas para o Ciclo de Gestão 2017-2020. Saúde em Debate, 43(spe7), 75-91. https://doi.org/10.1590/0103-11042019S706

[4]: Bousquat, A., Frazão, P., Mota, P. H. S., & Mendes, Á. (2024 ). Desafios na gestão municipal do Sistema Único de Saúde no município de São Paulo. Estudos Avançados, 38(111). https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2024.38111.009

[5]: Fleury, S. (2014 ). Democracia e Inovação na Gestão Local da Saúde. Rio de Janeiro: Cebes/Fiocruz.

[6]: Rother, E. T. (2007). Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, 20(2), v-vi. https://doi.org/10.1590/S0103-21002007000200001

[7]: Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde - CONASEMS. (2019 ). Pesquisa com os Gestores(as) Municipais de Saúde: perfil e desafios da gestão. Brasília: CONASEMS/UFPB. Disponível em: https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2019/06/Pesquisa-Perfil-Gestor.pdf

[8]: Brancaglion, M., Soares, J., & Bahia, L. (2022 ). Uma análise do perfil dos secretários de saúde: interfaces entre saúde e os processos político-eleitorais. Saúde em Debate, 46(134), 693-709. https://doi.org/10.1590/0103-1104202213407

[9]: Padilha, F. (2025 ). Apoio Institucional como estratégia de aprimoramento da gestão em saúde: o caso dos apoiadores Cosems-Conasems. Saúde em Debate, 49(144), e9802. https://doi.org/10.1590/0103-1104202514402

[10]: Ferraz, E. M., Mendonça, F. F., Carvalho, B. G., et al. (2025 ). Educação permanente em saúde: estratégia de fortalecimento na formação e atuação de equipes gestoras municipais no Sistema Único de Saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 35(3), e350304. https://doi.org/10.1590/S0103-7331202535304

[11]: Malaman, L. B., & Spagnol, C. A. (2021 ). Gestão em saúde e as implicações do secretário municipal de saúde no SUS: uma abordagem a partir da análise institucional. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 31(4), e310408. https://doi.org/10.1590/S0103-73312021310408

[12]: Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo - COSEMS/SP. (2026 ). Alta rotatividade marca o primeiro ano do mandato municipal na saúde paulista. Disponível em: https://www.cosemssp.org.br/noticias/alta-rotatividade-marca-o-primeiro-ano-do-mandato-municipal-na-saude-paulista/

[13]: UniverSaúde. (2026 ). Eficiência em gestão da Saúde: O que fazer para tornar seu município excelência na gestão do SUS? Disponível em: https://www.universaude.com.br/eficiencia-gestao-saude-1


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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 27 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da SaúdeAtualmente trabalha como Tutor do HCor em iniciativas do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.

 
 
 

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