O quê eu faço com o pouco que tenho?
- ericovasconcelos4

- 10 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Como promover a sustentabilidade financeira de Secretarias Municipais de Saúde?

A gestão da saúde pública municipal no Brasil enfrenta um paradoxo diário: as demandas aumentam, mas os recursos não acompanham. A crônica insuficiência de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), associada a um modelo de gestão muitas vezes reativo, gera uma rotina de improvisos. O resultado? Secretarias sobrecarregadas, dificuldade de execução orçamentária e baixa eficiência no uso dos recursos públicos.
1. A realidade do subfinanciamento no SUS
Estudos recentes mostram que o gasto público per capita em saúde no Brasil está entre os menores dos países da OCDE. Segundo dados do IBGE (2022) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), o gasto total com saúde pública no Brasil gira em torno de 9,6% do PIB, sendo que menos da metade disso é custeado pela União — onerando desproporcionalmente estados e, sobretudo, municípios.
Os municípios do País respondem por cerca de 31% do total das despesas públicas em saúde, mas recebem apenas 15% dos recursos federais vinculados ao SUS (Fonte: CONASEMS, 2023). Como se não bastasse, muitas prefeituras comprometem mais de 25% de seu orçamento próprio com saúde - muito além do piso constitucional de 15%. Segundo o Sistema de Informação dos Orçamentos Públicos de Saúde (SIOPS, 2024), 97 municípios (15%) do Estado de São Paulo gastaram mais que 30% do tesouro municipal com Saúde em 2024. Esse desequilíbrio inviabiliza a ampliação dos serviços e torna urgente o debate sobre sustentabilidade financeira a partir da inteligência na alocação dos poucos recursos disponíveis.
2. Caminhos para a sustentabilidade financeira na gestão municipal do SUS
2.1. Governança orientada a resultados
A primeira transformação necessária é cultural. Secretarias que operam sob uma lógica de resposta a demandas políticas imediatas ou a eventos/circunstâncias pontuais (como visitas do Ministério Público, auditorias, ou denúncias na imprensa) perdem o rumo estratégico. O foco deve migrar para indicadores de saúde e eficiência.
Uma agenda que temos defendido Brasil afora neste sentido é a criação dos "Núcleos de Economia da Saúde" nas Secretarias, operando como espaços de "inteligência gestora" para pautar a leitura e análise das operações nas Unidades assistenciais, subsidiando com conhecimento e evidências a tomada de decisão gestora - eliminando desperdícios e racionalizando os custos assistenciais.
2.2. Redução de desperdícios e ineficiências
Estudos da Fiocruz e do IESS indicam que cerca de 30% do gasto em saúde pública no Brasil pode ser classificado como ineficiente, seja por compras duplicadas, judicializações evitáveis ou má alocação de pessoal.
Faz-se importante aqui a revisão de contratos terceirizados, com foco em desempenho, a adoção de sistemas informatizados de gestão de estoque e dispensação de medicamentos, evitando perdas e vencimentos e, por fim, o estímulo ao uso de protocolos clínicos baseados em evidências, evitando exames e procedimentos desnecessários.
2.3. Regionalização e compras compartilhadas
A lógica isolada de compras e contratação de serviços enfraquece o poder de barganha dos municípios. Por outro lado, consórcios intermunicipais e compras regionais têm se mostrado eficazes na redução de custos unitários e aumento da oferta de serviços especializados.
Uma boa prática é a composição dos municípios com Consórcios intermunicipais de saúde com contratos programados para exames, consultas e cirurgias eletivas, além de compras coletivas de medicamentos de alto custo ou insumos estratégicos - como os existentes nos Estados do Paraná, Bahia e Minas Gerais, por exemplo.
2.4. Maximização das receitas do SUS
Grande parte dos municípios perde recursos por subnotificação de produção, falhas no registro de procedimentos e ausência de protocolos de faturamento. Faz-se cada vez necessário qualificar continuamente as equipes de faturamento (BPA e AIH), realizar auditoria interna mensal dos registros de produção, além de preparar as Equipes da Atenção Primária à Saúde para o novo modelo de cofinanciamento lançado recentemente e que entrará em vigor a partir de janeiro/2026.
2.5. Parcerias e inovação com controle
A inovação tecnológica e as parcerias com a iniciativa privada e com organizações especializadas podem aumentar a produtividade da máquina pública, desde que acompanhadas de regras claras, resultados mensuráveis, prestação de contas regular e frequente e participação ativa do controle social.
Ações como a integração com plataformas de telessaúde e teleinterconsulta, como solução escalável para vazios assistenciais, soluções de prontuário eletrônico com integração entre APS e atenção especializada e parcerias com organizações como a UniverSaúde, que oferecem apoio técnico-operacional com foco em inteligência em saúde, melhoria de indicadores e uso racional de recursos, são fundamentais.
3. Um novo perfil de secretário municipal de saúde
A nova agenda de sustentabilidade organizacional e financeira exige um Secretário Municipal de Saúde (e uma equipe) com habilidades técnicas, capacidade de negociação política e uma postura de liderança estratégica. Já não basta ser “bom de relacionamento” ou mesmo "trânsito político" — é preciso ser bom de gestão e bom de entrega.
Precisamos de cada vez mais Secretários Municipais de Saúde com competências distintas, tais como:
Liderança que escuta e agrega, dando exemplo, inspirando os Pares e servido-os,
Habilidades para negociar com os diferentes atores sociais diante dos interesses que perpassam a agenda da Saúde Pública nos municípios,
Capacidade de desenvolver uma agenda gestora pautada pela rodagem de "ciclos de melhoria contínua", por meio de ações como o planejamento, a execução e, sobretudo, monitoramento e avaliação regular e frequente,
Capacidade gerencial sobre os processos operativos da Secretaria,
Postura técnica frente ao controle externo e aos órgãos de fiscalização.
Conclusão: fazer mais com menos — e melhor
A resposta para a pergunta “O que eu faço com o pouco que eu tenho?” passa pela adoção de uma agenda de sustentabilidade financeira local, com foco em eficiência, inteligência de dados, pactuação regional e governança focada em resultados.
A sustentabilidade organizacional e financeira das Secretarias Municipais de Saúde é, acima de tudo, uma questão de escolha estratégica e competência de gestão. Mesmo diante do (des?) subfinanciamento, é possível alcançar melhores resultados com os recursos disponíveis, desde que se adote uma postura ativa, baseada em dados, eficiência, na diretrizes da regionalização e inteligência de gestão. Não se trata apenas de "sobreviver" com pouco, mas de fazer o máximo possível com o que se tem — justificando cada centavo investido. O futuro da saúde municipal (que já chegou!) depende disso.
Referências bibliográficas
IBGE. Conta Satélite de Saúde: Brasil 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
CONASEMS. Panorama da Gestão Municipal do SUS. Brasília, 2023.
Organização Mundial da Saúde. Global Health Expenditure Database. OMS, 2022.
Fiocruz. Desperdício em Saúde: estimativas e caminhos. Série Estudos Estratégicos, 2021.
Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Eficiência na Saúde Pública Brasileira, 2022.
Ministério da Saúde. Manual do Previne Brasil, Brasília, 2023.
Tribunal de Contas da União. Boas práticas em consórcios públicos intermunicipais, Brasília, 2020.
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[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 19 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da Saúde. Atualmente trabalha como Tutor do HCor em uma iniciativa do PROADI-SUS/Ministério da Saúde e desenvolve parceria com a empresa de tecnologia OM 30 de São Paulo-SP.




Parabéns pelo artigo Erico. Isso é muito importante para que os Gestores possam desenvolver o domínio sobre os recursos em Saúde Pública.