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Saúde 2027–2030: seis compromissos que o próximo governo federal não pode adiar

Erico Vasconcelos [A]



Uma agenda apartidária para transformar diagnóstico em acesso, qualidade e vidas protegidas


O debate eleitoral costuma reduzir a Saúde a promessas de hospitais, médicos, equipamentos ou “fila zero”. Medidas isoladas, porém, não reorganizam um sistema continental, federativo e desigual. O próximo governo federal precisa propor a construção de um "novo pacto interfederativo" para a Saúde à luz de um País em plena transformação, com foco na viabilização da execução, com prioridades nacionais, responsabilidades compartilhadas e resultados verificáveis.

 

A leitura integrada da UniverSaúde, baseada em oito sistemas oficiais e nos 5.571 municípios, mostra a sobreposição que define o adoecimento no País. Em 2024, 3,20 milhões das 14,04 milhões de internações do SUS foram sensíveis à Atenção Primária. Em 2023, o Sinan registrou 588.298 notificações de violência interpessoal ou autoprovocada; a mortalidade infantil variou de 9,1 por mil nascidos vivos em Santa Catarina a 23,9 em Roraima. Embora os anos acompanhem a consolidação de cada base, o padrão é claro: doenças crônicas, infecções, violências e desigualdades pressionam simultaneamente a mesma rede.[1]

 

O envelhecimento torna a mudança urgente. Entre 2010 e 2022, a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% e chegou a 22,2 milhões.[2] O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa deixar de reagir apenas a episódios agudos e cuidar, ao longo do tempo, de multimorbidade, dependência funcional e reabilitação, com apoio às famílias cuidadoras.

 

Compromisso indispensável

Decisão federal que precisa sair do papel

Como a sociedade deve cobrar resultado

1. Financiar necessidades, não pressões políticas

Estabelecer trajetória plurianual de financiamento público; distribuir recursos por necessidades sanitárias, vulnerabilidade e desempenho; submeter emendas aos planos nacional, estaduais e regionais de saúde.

Gasto público per capita por território, previsibilidade dos repasses, equidade da alocação e evolução dos desfechos.

2. Colocar a Atenção Primária no comando — inclusive do envelhecimento

Expandir e qualificar a Estratégia Saúde da Família; incorporar estratificação de risco, cuidado de crônicos, fragilidade, saúde mental, reabilitação, atenção domiciliar e integração com o SUAS.

Acesso oportuno, continuidade do cuidado, internações evitáveis, controle de condições crônicas e capacidade funcional das pessoas idosas.

3. Regionalizar redes e unificar a regulação das filas

Dar governança, orçamento e capacidade decisória às regiões de saúde; adotar cadastro único, prioridade clínica, transporte sanitário e fluxos pactuados entre municípios, estados e União.

Tempo mediano e tempo de espera de 90% dos usuários, por linha de cuidado, duplicidades eliminadas, absenteísmo e desfechos após o atendimento.

4. Tratar dados e saúde digital como infraestrutura essencial

Tornar obrigatória a interoperabilidade dos sistemas, a atualização das filas e a rastreabilidade do percurso do paciente; avaliar IA e telessaúde por segurança, equidade e resultado real.

Completude, oportunidade e integração dos registros; percentual de usuários com trajetória assistencial acompanhável; impacto clínico das soluções digitais.

5. Enfrentar a tripla carga e a violência como missão de Estado

Integrar prevenção de doenças crônicas, vacinação, vigilância de infecções, saúde mental, segurança viária, prevenção de violências e quedas e adaptação climática, com metas compartilhadas entre ministérios.

Mortalidade prematura, cobertura vacinal, controle de hipertensão e diabetes, lesões por trânsito e armas, suicídios, quedas e resposta a eventos climáticos.

6. Garantir profissionais, ciência e autonomia produtiva

Planejar formação, residência, provimento e educação permanente conforme vazios assistenciais; fortalecer avaliação de tecnologias, pesquisa, vigilância e produção nacional de medicamentos, vacinas e insumos estratégicos.

Vagas desassistidas, rotatividade, acesso à residência, desabastecimentos, tempo de resposta a emergências e redução da dependência produtiva crítica.


O que muda na prática

Primeiro, é preciso financiar melhor o que importa. Embora o Brasil destine parcela relevante de sua riqueza à Saúde, o componente público era apenas 44% do gasto total em 2019.[3] Os recursos precisam ser suficientes, estáveis, federativamente justos e vinculados a necessidades e resultados. Emendas anuais e desigualmente distribuídas desorganizam o planejamento; em 2025, chegaram a R$ 21,5 bilhões para a saúde municipal, segundo levantamento noticiado pelo Estadão.[4]

 

Segundo, a Estratégia Saúde da Família deve coordenar a rede. Três décadas de evidências associam sua expansão a maior acesso, melhores indicadores e menos desigualdade, apesar das lacunas de cobertura, estrutura e integração.[5] Para uma população mais velha, isso requer identificar fragilidade, controlar multimorbidades, organizar atenção domiciliar e construir, com a assistência social, uma política nacional de cuidados de longa duração.[6]

 

Terceiro, fila não se resolve com mutirão permanente, mas com rede regional e regulação única. Em janeiro de 2025, o Sisreg registrava 5,7 milhões de pessoas à espera de consulta e 600,4 mil por cirurgia, mas 13 unidades da Federação alimentavam o sistema de forma parcial ou não o preenchiam, segundo O Globo.[7] Auditoria do TCU relatada pela Folha encontrou atrasos superiores ao prazo legal em parte relevante das cirurgias oncológicas e, ao mesmo tempo, cobertura nacional incompleta.[8] O governo federal deve financiar a integração, exigir atualização dos dados, depurar duplicidades, publicar tempos de espera por risco clínico e remunerar cuidado resolutivo — não apenas procedimentos.

 

Quarto, a transformação digital deve servir ao paciente, não criar uma nova fragmentação. Prontuário, regulação, vigilância, assistência farmacêutica e produção hospitalar precisam conversar. Inteligência artificial, telessaúde e automação só merecem escala quando reduzem barreiras, não ampliam vieses e demonstram benefício no mundo real. A regra deve ser simples: sem interoperabilidade, qualidade do dado, segurança e avaliação, tecnologia é custo; com esses requisitos, pode ser acesso.

 

Quinto, violência é Saúde Pública e o País clama por uma ação contundente. Entre 2000 e 2023, o SUS registrou 23 milhões de internações por causas externas, ao custo de R$ 44,24 bilhões; quedas responderam por 39,8% desses casos.[9] A violência armada, o trânsito, as agressões contra mulheres e crianças, o suicídio e as quedas de pessoas idosas exigem vigilância, cuidado ao trauma, reabilitação e prevenção intersetorial. O mesmo vale para dengue, tuberculose, baixa cobertura vacinal, obesidade, câncer, doenças cardiovasculares e eventos climáticos. A tripla carga não pode continuar dividida em programas que não compartilham território, equipe nem meta.

 

Sexto, não haverá reforma sem gente qualificada e segurança produtiva. A União deve induzir formação, residência e permanência nas áreas e regiões de maior necessidade. Também precisa tratar o Complexo Econômico-Industrial da Saúde como proteção social: ciência, regulação e produção nacional condicionam o acesso sustentável a vacinas, medicamentos e tecnologias.

 

O compromisso dos primeiros 100 dias

O próximo governo deve publicar uma linha de base nacional, selecionar poucas metas de desfecho para 2027–2030 e pactuar, com estados e municípios, responsáveis, orçamento e calendário. A cada ano, os resultados precisam ser auditáveis e comparáveis por território, raça/cor, sexo, idade e vulnerabilidade. O Valor Econômico já registrou que subfinanciamento e fragilidade de gestão aparecem, lado a lado, entre os riscos mais percebidos por lideranças do setor.[16] Portanto, o falso dilema entre “mais dinheiro” e “melhor gestão” precisa acabar: o Brasil necessita dos dois, subordinados à equidade e ao valor produzido para a população.

 

Falta transformar bases dispersas em decisões que indiquem onde agir primeiro, com quais recursos e contra quais resultados. O Diagnóstico da Saúde Municipal da UniverSaúde faz essa integração ao longo do ciclo de vida, compara territórios e converte dados oficiais em inteligência para gestores. Gestores e organizações interessados podem solicitar uma apresentação reservada e discutir sua aplicação ao planejamento e à tomada de decisão. 

Agende uma reunião com a equipe da UniverSaúde: calendar.app.google/psd91A8iCfcpjwsV8  

 

Referências

[1]: Diagnóstico da Saúde Municipal — UniverSaúde. Análise interna realizada em 15 ago. 2026, a partir de IBGE/SVS, Sinasc, CNES, SIA/SUS, Sinan, Sisvan, SIH/SUS e SIM; anos de referência variam conforme a disponibilidade consolidada de cada sistema.


_______________


[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 27 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da SaúdeAtualmente trabalha como Tutor do HCor em iniciativas do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.

 
 
 

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