top of page

Entre a Política, a Técnica e a Liderança: Que Gestor é este que o SUS mais precisa hoje?

Erico Vasconcelos (A)



O Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro é reconhecido mundialmente por sua magnitude e arquitetura descentralizada. Na base dessa estrutura encontra-se o município, o ente federativo mais próximo das reais necessidades da população. No epicentro da gestão municipal, o Secretário de Saúde assume um papel de extrema relevância e complexidade. Trata-se de uma posição que exige muito mais do que conhecimento técnico ou alinhamento partidário; demanda uma profunda capacidade de liderança.

As evidências contemporâneas sobre a gestão pública de saúde revelam um cenário preocupante: a altíssima rotatividade desses profissionais. Dados do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) apontam que, em média, cerca de 300 gestores são trocados mensalmente no Brasil. Esta descontinuidade administrativa gera um ciclo vicioso de ineficiência, onde o planejamento estratégico se perde, as equipes se desmotivam e a população sofre com a fragmentação do cuidado. Diante dessa realidade, torna-se imperativo refletir sobre o perfil e as competências necessárias para a consolidação de Secretários de Saúde verdadeiramente líderes.


A Questão Central: O Preparo e o Perfil Ideal do Gestor

Uma reflexão inevitável emerge deste cenário: quais os principais requisitos para ser uma(um) excelente Secretária(o) de Saúde? Estariam estes devidamente preparados para assumir tal papel? O quê deve ser fato considerado minimamente para a assunção deste cargo?


Historicamente, o perfil do gestor de saúde transitou do modelo estritamente médico para uma configuração mais plural. Atualmente, observa-se uma progressiva feminização e especialização do cargo, com expressiva participação de profissionais da enfermagem e egressos da Atenção Primária à Saúde. No entanto, a formação acadêmica tradicional na área da saúde raramente prepara o profissional para as complexidades da administração pública, orçamentos, licitações e articulação política.


O perfil ideal para o Secretário de Saúde contemporâneo transcende a dicotomia entre o "técnico puro" e o "político de carreira". Atualmente ele exige um perfil híbrido e estratégico, caracterizado por:


1.Cognição Sistêmica: Compreensão profunda do funcionamento em rede do SUS e das legislações pertinentes,


2.Habilidade de Mediação: Alguém sereno, "escutador" e versátil com capacidade de dialogar com o Prefeito, Câmara de Vereadores, Conselhos de Saúde e Ministério Público, blindando a equipe técnica de interferências políticas deletérias,


3.Foco em Resultados e Dados: Tomada de decisão orientada por evidências e indicadores, abandonando o deletério empirismo na arte de executar a gestão pública,


4.Liderança Mobilizadora: Competência para inspirar e engajar as pessoas e as equipes da "linha de frente".


Para agir com excelência nesta posição, o Secretário precisa, necessariamente, cumprir com a premissa de que a gestão não pode ser baseada no improviso e, sobretudo, na correria, pautada pelo senso de urgência; Ou pior, na pressão por respostas a questões demandadas de última hora. É imperativo adotar um método a seguir, estruturado a partir de um coletivo ativo e estratégico que realiza cotidianamente diagnósticos precisos, planificação de ações, execução cuidadora com monitoramento de indicadores e avaliação contínua de resultados.


A Tripla Dimensão do Cargo: Política, Técnica e Liderança

O Secretário Municipal de Saúde atua em uma zona de intersecção, muitas vezes conflituosa. Ele é nomeado pelo chefe do Executivo como um cargo de confiança, o que confere à sua posição uma inegável conotação político-partidária. Simultaneamente, exige-se dele cognição técnica apurada para gerir orçamentos complexos, planejar ações epidemiológicas e dialogar com instâncias intergestoras.


No entanto, a mera justaposição de habilidades políticas e técnicas tem se mostrado insuficiente. É a liderança que atua como a força coesiva capaz de integrar essas duas esferas. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu modelo de blocos construtivos dos sistemas de saúde ("Building Blocks"), posiciona a "Liderança e Governança" como a função mais complexa e vital para o fortalecimento dos sistemas.

Dimensão da Gestão

Foco Principal

Desafio Central

Político-Partidária

Alinhamento com o projeto de governo e viabilidade eleitoral

Gerenciar expectativas do Prefeito, legislativo e grupos de interesse sem comprometer os princípios do SUS.

Técnico-Administrativa

Eficiência na alocação de recursos, planejamento e normativas

Cumprir metas fiscais, sanitárias e legais em um cenário crônico de subfinanciamento.

Liderança

Mobilização de pessoas, construção de coalizões e gestão da mudança

Transformar as pressões políticas e os desafios técnicos em um propósito compartilhado que engaje a equipe.

O Paradoxo da Complexidade: Liderança Adaptativa

O cotidiano da gestão municipal em saúde é caracterizado por incertezas e crises constantes. Para compreender a atuação do(a) Secretário(a) neste ambiente, o referencial teórico da Liderança Adaptativa, cunhado por Ronald Heifetz na Universidade de Harvard, oferece ferramentas analíticas precisas.


Heifetz estabelece uma distinção fundamental entre problemas técnicos e desafios adaptativos. Problemas técnicos são aqueles de fácil diagnóstico e cujas soluções já são conhecidas e podem ser aplicadas por especialistas. Por outro lado, os desafios adaptativos são difíceis de identificar, não possuem soluções pré-fabricadas e exigem mudanças em valores, crenças, papéis e abordagens.


"O fracasso mais comum da liderança decorre da tentativa de aplicar soluções técnicas a desafios adaptativos." (Ronald Heifetz)


Na saúde pública municipal, a reestruturação da Atenção Primária à Saúde ou a mudança na cultura organizacional das equipes são desafios essencialmente adaptativos. O(A) Secretário(a) de Saúde líder é aquele capaz de distinguir entre ambos, compreendendo que não pode prover respostas fáceis para problemas complexos, mas deve mobilizar os diversos atores para que, coletivamente, construam a solução.


Engajamento e Liderança Transformacional

O sucesso do projeto de governo na área da saúde depende visceralmente do engajamento dos trabalhadores da linha de frente. A teoria da Liderança Transformacional, desenvolvida por Bernard Bass e Bruce Avolio, demonstra que líderes eficazes são aqueles que elevam os interesses de seus liderados, gerando consciência e aceitação dos propósitos do grupo.


A liderança transformacional no setor público está diretamente associada ao aumento do bem-estar das equipes e à redução do esgotamento profissional. Quando o(a) Secretário(a) exerce competências como influência idealizada, motivação inspiracional e a atuação pela perspectiva do "exemplo", ele transcende a autoridade formal do cargo, mitigando os efeitos deletérios da descontinuidade política.


O Papel da UniverSaúde: Apoio, Cuidado e Proteção para a Excelência Gestora e Sustentabilidade Financeira

Diante da complexidade do cargo e da "solidão decisória" que frequentemente acomete os(as) Secretários(as) de Saúde, o suporte institucional e instrucional torna-se o diferencial entre o fracasso e o sucesso de uma gestão. É neste contexto que o papel de organizações GovTech especializadas em saúde pública ganha relevância ímpar no Brasil.


A UniverSaúde destaca-se nacionalmente neste cenário assumindo a missão fundamental de apoiar, cuidar e proteger os gestores que assumem essas posições estratégicas. Compreendendo que a estabilidade do gestor é a "pedra angular" para a construção de um SUS eficiente e cada vez mais responsivo, a instituição propõe uma agenda orientada, impreterivelmente, para a excelência gestora e a sustentabilidade financeira.


Através de um método estruturado que alia diagnóstico preciso, planejamento e planificação de ações, por meio de um método apoiado por "sistemas de gestão", e apoio instrucional e gerencial, a UniverSaúde atua diretamente nas "dores" da gestão municipal. A aplicação de seu Índice de Excelência Gestora (IEG) permite às Secretarias diagnosticar gargalos operacionais e reduzir desperdícios, que frequentemente corroem o orçamento municipal .


Mais do que uma tradicional consultoria, o modelo da UniverSaúde atua na educação permanente e continuada do(a) Secretário(a) e de sua equipe — oferecendo, inclusive, ações para a formação em serviço destes gestores apoiada por tecnologias digitais. Ao fornecer as ferramentas e o método para que o gestor entregue resultados concretos e visíveis (como a redução de filas e a otimização de custos), a instituição ajuda a fortalecer politicamente o(a) Secretário(a) perante o Prefeito e a sociedade, garantindo a continuidade administrativa necessária para a transformação do sistema.


Conclusão

O Brasil precisa urgentemente de Secretários de Saúde líderes, devidamente preparados e amparados por métodos de gestão consistentes. O modelo tradicional do gestor isolado esgotou-se. A governança efetiva do SUS exige um perfil capaz de transitar entre a técnica e a política, utilizando a Liderança Adaptativa para enfrentar a complexidade do sistema e a Liderança Transformacional para engajar as equipes.


Contudo, cobrar excelência de gestores submetidos a altíssima pressão e rotatividade sem lhes oferecer suporte é um contrassenso. A construção de uma agenda voltada à sustentabilidade financeira e à eficiência, capitaneada por iniciativas como a da UniverSaúde, mostra-se essencial - e urgente. Ser Secretário Municipal de Saúde é um ato de entrega e de coragem; apoiá-los e protegê-los é o caminho mais seguro para garantir que a saúde pública brasileira entregue os resultados esperados e cumpra seu propósito de cuidar de todos.


Referências

_______________


[A] Erico Vasconcelos é cirurgião-dentista, estomatologista, especialista em Terapia Comunitária, em liderança e desenvolvimento gerencial de organizações de saúde e com MBA em gestão de pessoas. Há 27 anos atua na gestão da Atenção Básica, do SUS, na Segurança e Qualidade e na Gestão Estratégica de Pessoas de organizações de saúde. Foi gestor de diversas organizações privadas e municípios. Atuou no Ministério da Saúde entre 2013 e 2016 no Departamento de Atenção Básica elaborando políticas e desenvolvendo ações de apoio e educação. Desde 2005 atua na formação em serviço de gestores e profissionais de saúde pelo Brasil afora. Trabalhou como Tutor e Coordenador de Cursos na EaD da ENSP, UnASUS-UNIFESP e na UFF. Foi Professor de Saúde Coletiva da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em outros cursos de várias Universidades. Fundou a UniverSaúde em 2016, uma empresa que ajuda gestores a reduzirem custos e a captarem novos recursos com resultados rápidos, fortalecendo a governança e promovendo a sustentabilidade financeira e organizacional da SaúdeAtualmente trabalha como Tutor do HCor em iniciativas do PROADI-SUS/Ministério da Saúde.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page